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Hany+Abu+Assad+Omar+Portrait+Session+Cannes+3iSdIarSGsJlA história de amor nascida da paranóia vivida pelo realizador palestiniano estreia hoje no Medeia Monumental, em Lisboa, e nos cinemas Campo Alegre, no Porto

“Omar” é filho dos fantasmas que perseguem Hany Abu Assad desde cedo. “Quando era jovem fui interrogado algumas vezes pelos israelitas em Nazaré, a minha cidade natal. Acho que na altura eles perceberam que não iam conseguir transformar-me num informador. Basicamente, o que eles tentam nos interrogatórios é fazer de ti um colaborador, mas são espertos. Porque é que haveriam de desperdiçar as energias em alguém em que não vão poder confiar a 100%? Acho que foi por isso que me deixaram em paz.”

Os fantasmas ficaram na penumbra durante alguns anos, até que o realizador palestiniano começar a rodar “Paradise Now”, filme de 2005 que conta a história de dois amigos de infância de Nablus que são recrutados para levar a cabo um atentado bombista em Telavive.

Enquanto estava a gravar na Cisjordânia ocupada, explica ao i a partir de Los Angeles, o exército israelita criou tantos problemas que a dada altura Abu Assad começou a ficar paranóico. “Foi uma experiência terrível, comecei a suspeitar que havia alguém na minha equipa que era um espião. Começas a ficar doido, a suspeitar de toda a gente, é uma total paranóia, sabes? Até hoje não sei se havia ou não um espião, mas foi uma experiência insuportável.”

Anos depois, enquanto gravava “The Courier”, filme norte-americano que dirigiu em 2012, a paranóia deu lugar ao pânico. Uma madrugada acordou encharcado em suor e sem conseguir respirar. E aí percebeu que a única forma de enterrar os fantasmas era fazer um filme sobre confiança nos territórios palestinianos ocupados, fio condutor de “Omar”, que se estreia hoje em Portugal.

“Passei tantos anos a fazer coisas artificiais e de repente senti que tinha de fazer algo com que realmente me importasse. Tinha a minha experiência pessoal e também a história de um amigo de Ramallah que o exército tentou transformar num colaborador. Sabiam segredos dele e usaram-nos. Falar disso, falar da minha experiência, da paranóia, foi o ponto de partida de ‘Omar’.”

Se com “Paradise Now”, o primeiro da sua obra a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2006, Abu Assad se lançou no panorama internacional, com “Omar” conseguiu o que poucos artistas palestinianos alcançaram até hoje. “Desta vez a imprensa israelita reagiu de forma totalmente diferente”, diz. Quando “Paradise Now” estreou em Israel, jornais como o “Jerusalem Post” classificaram-no como uma elegia a assassinos em massa. Desta vez, “a maioria dos jornais israelitas fez muito boas críticas, até o jornal de direita ‘Ma’ariv’ me deu quatro em cinco estrelas. Foi surpreendente, mas ao mesmo tempo julgo que este filme é menos ofensivo para eles que o ‘Paradise Now’, porque no fim de contas há diferenças entre matar um soldado e explodir com uma estação de autocarros. A maioria dos críticos vê em ‘Omar’ uma história de amor inserida no género thriller, não uma coisa política.”

Obstáculos Interpretado por Adam Bakri, Omar é um jovem padeiro palestiniano habituado a trepar o muro da Cisjordânia diariamente para visitar Amjad e Tareq, seus amigos de infância, e sobretudo Nadia, irmã de Tareq com quem mantém uma relação em segredo. Capturado pelo exército israelita durante um acto de resistência à ocupação ilegal da Palestina, Omar vê-se forçado a fazer duras escolhas, numa encruzilhada em tudo semelhante à que o amigo de Abu Assad e muitos outros palestinianos enfrentam há décadas.

Amor e traição são os ingredientes fortes da longa-metragem, distinguida em 2013 com o prémio especial do júri – Un Certain Regard – do Festival de Cannes e nomeada na categoria de melhor filme estrangeiro pela academia norte-americana nesse ano. Mas a política é incontornável, a começar pela barreira de pedra (em partes da Cisjordânia três vezes mais alta que o Muro de Berlim), que torna a história de amor uma tragédia.

“Não sinto falta de falar do que se passa na Palestina explicitamente nos meus filmes, porque isso acaba por aparecer. No dia-a-dia, o muro divide as pessoas, divide famílias. Muita gente não sabe que o muro não está na fronteira de Israel definida em 1967; 80% do muro está dentro das fronteiras da Cisjordânia, existe para separar os palestinianos uns dos outros. No meu filme queria criar uma visualização do obstáculo à história de amor, transmitir a sensação do obstáculo exterior que a Nadia e o Omar enfrentam. E não existe obstáculo mais poderoso que um muro.”

O tiro de partida do filme é um disparo sobre Omar quando escala a barreira que divide a sua vila em duas, a primeira reflexão, mesmo que inadvertida, de que esta história de amor é diferente porque nascida e experienciada no coração de um território mergulhado em violência.

Ao contrário do que aconteceu enquanto rodava “Paradise Now” ou “Nazaré”, o documentário sobre a sua terra-natal estreado em 2000, em que foi assediado pelas forças da ocupação durante as gravações, desta vez nem as cenas no muro foram alvo de objecção por parte de Israel.

“Penso que as autoridades israelitas sabiam que cada jornalista deste mundo com quem eu ia falar me iria perguntar se foi difícil filmar na Cisjordânia e sabiam que se tivessem dificultado a minha vida tanto como durante o ‘Paradise Now’… Digamos que antes de eu ser nomeado [para o primeiro Óscar] me chateavam bastante e hoje em dia nem tanto. Deixaram-me em relativa paz, porque sabem que se me fizerem coisas más, se tentarem humilhar-me como fazem aos palestinianos todos, isso vai sair na imprensa e portanto, de repente, comecei a ser bem tratado. Agora já não tenho histórias más para contar”, conta numa gargalhada nervosa.

Ocupação A curta conversa telefónica com o i e a estreia portuguesa de “Omar” acontecem numa altura de tensões agravadas nos territórios ocupados. O desaparecimento, a 12 de Junho, de três israelitas do colonato Gush Etzion, em Hebron, piorou a ocupação da Cisjordânia e afundou ainda mais os palestinianos numa existência envolta em terror, bem antes de os corpos dos três colonos adolescentes terem sido encontrados a 1 de Julho e de Israel lançar a ofensiva Barreira de Protecção contra a Faixa de Gaza, uma campanha de bombardeamentos a civis prestes a entrar na terceira semana.

“Aqui em L.A. não há destruição, ao contrário do que acontece em Nazaré, onde vive a minha família… A minha mãe e o meu irmão estão longe das explosões, mas não têm abrigos como os israelitas, estamos totalmente dependentes da sorte”, começa por explicar assim que nos apresentamos virtualmente.

A recepção positiva de “Omar”, admite, é um de vários sinais de que as coisas estão a mudar. Mas que não se leia um tom optimista nisso. “Pela força tiram- -nos a terra, forçam-nos a viver em guetos, tiram-nos todas as hipóteses de fazermos parte dos processos de decisão. É isso que é ocupação. Agora há de facto cada vez mais noção e consciência no mundo inteiro de que o Estado israelita, como é hoje, um Estado racista, um regime de apartheid, não é bom para ninguém, nem sequer para os judeus. Eles estão a fazer monstros das suas crianças. Quem é que quer que os seus filhos tenham como principal emprego, aos 20 ou 21 anos, humilhar palestinianos? Como é possível fazerem isto aos seus seres humanos, sabes? Penso que Israel, como é hoje, é uma vergonha para a humanidade, não só para palestinianos e árabes, mas para a humanidade. E acho que a comunidade judaica está a começar a perceber isso. Há 30 anos nem sequer podíamos dizer que somos palestinianos, respondiam- -nos que não existíamos porque a Palestina não existe. Mas eu sou da Palestina. Não é porque lhe mudam o nome que deixo de ser quem sou.”

Diz não se importar que alguns jornalistas prefiram falar de política a falar de arte no que toca aos seus filmes, sobretudo considerando que se vive hoje uma altura de “crescente, ainda que lento, reconhecimento” de que a única solução para o mais longo dos conflitos da história moderna “é um estado para todos e não exclusivo de judeus ou árabes ou cristãos ou muçulmanos… Podem criar 120 estados ou só um, não importa, o que interessa é que toda a gente tenha direitos e oportunidades iguais e a partilha de poderes e decisões, sem que nenhum grupo seja excluído, pela cor, pela religião ou pela raça, da vida em si mesma”.

Com “Omar”, Hany Abu Assad dá a última prova (se mais provas eram necessárias) de que é possível o compromisso com uma causa sem maniqueísmos cinematográficos. Tal como Israel parece ter recebido o filme de braços abertos, também os palestinianos tiveram a melhor das reacções. “Digamos que o ‘Paradise Now’ dividiu a sociedade palestiniana. Alguns adoraram, outros odiaram… Agora o ‘Omar’ toda a gente adorou, desde quem vive em campos de refugiados a pessoas sofisticadas, da Autoridade Palestiniana ao Hamas. A única exigência do Hamas foi que removesse o beijo, de resto todos, até o Hamas, adoraram o ‘Omar’.”

Por força das circunstâncias, após um instituto cultural ter decidido retirar o apoio prometido equivalente a 25% do orçamento total, o filme acabou por se tornar no primeiro a alcançar fama mundial sendo quase totalmente financiado por palestinianos (“95% de dinheiro da Palestina, 5% do Dubai”, diz).

A isso junta-se o facto, imperceptível a olho nu, de que todos os actores, à excepção do agente israelita que chantageia o protagonista, são amadores. “Estive seis meses a fazer castings na Palestina, concentrado apenas nisso. São uma parte essencial do filme. A Leem Lubany [Nadia] faz uma actuação magnífica. E o Iyad Hoorani [Tareq] é um dos mais talentosos actores com quem já trabalhei.” Dizemos-lhe que Hoorani estudou sob direcção de Micaela Miranda , actriz portuguesa que, há oito anos, se mudou para o campo de refugiados de Jenin para dar aulas no Freedom Theatre. “Uau, não sabia, isso é fantástico. Acho que o papel da cultura, no Freedom como no BDS [movimento internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel], é a melhor forma de resistência não-violenta do nosso tempo.”

Em Los Angeles a trabalhar em dois novos projectos, “um palestiniano, outro americano”, Hany Abu Assad prefere mantê-los em segredo para já. “Só porque sou muito supersticioso.” Trocou a engenharia aeronáutica na Holanda pela indústria de filmes, porque é através deles que lida “com coisas vivas, do quotidiano, que apelam aos seres humanos e às sensações”. Na sua Palestina, a máquina de fabrico de sonhos no grande ecrã está longe de estar instalada, mas Assad acredita que algo vai acontecer em breve. “A pressão e a tomada de consciência estão a crescer e creio que é impossível evitar o ponto de colapso. Acredito mesmo que isto não vai durar, estamos a mover-nos para a beira do precipício. Toda a opressão tem um fim. E o fim da nossa vai chegar nos próximos anos.”

PDF: Hany Abu Assad I Hany Abu Assad II

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