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A portuguesa Micaela Miranda vive há sete anos no campo de refugiados de Jenin, onde ensina Interpretação, Criação Colectiva e Resistência Cultural a jovens que antes queriam morrer

Ahmad tinha 15 anos quando, em plena segunda Intifada, um amigo com quem passeava nas ruas do campo de refugiados de Jenin caiu de súbito no chão. Tinha levado um tiro na cabeça. Em semanas, o cabelo de Ahmad ficou completamente branco do choque. Pouco depois, Micaela Miranda chegou a Jenin para dar um workshop de clown, na primeira visita ao campo onde, mais tarde, viria a viver, a trabalhar e a ter uma filha.

“Quando o conhecemos ele era um tipo muito violento… Vinha para o meu workshop com uma naifa, daquelas butterflies que se abrem, sabes? E mais tarde – eu não estava no teatro nessa altura, mas contaram-me – veio lá com uns amigos e com uma bomba caseira a dizer ‘Vamos explodir isto’.”

Hoje, Ahmad tem 25 anos e é professor de improvisação na escola profissional do Freedom Theatre, fundado há oito anos no Norte da Cisjordânia, onde a actriz natural de Santa Maria da Feira aterrou de vez há sete. Antes de o teatro ser criado, Ahmad e a maioria dos jovens de Jenin, como os de outras partes do território ocupado, queriam morrer. Hoje já não. “Os rapazes agora dizem ‘Quero ser encenador, quero agarrar-me à vida e ajudar outros a agarrarem-se à vida’.”

Faisal, que aos 16 anos levou um tiro na perna e teve de faltar aos exames finais da escola, hoje coordena o Freedom Bus, uma iniciativa do teatro para chegar às comunidades fora de Jenin e ao resto do mundo, com histórias pessoais de resistência e teatro interactivo.

Como Ahmad e Faisal, Saabr era uma criança durante as violentas Intifadas. Aprenderam a sobreviver às duas revoltas (1987 e 2000) encarando a violência como um jogo. Quando tinha oito anos, Saabr viu o pai esvair-se em sangue e morrer, depois de ter sido atingido por soldados israelitas na rua às primeiras horas da madrugada. O filho tornou-se ladrão até se encontrar no Freedom e será para sempre conhecido por ter posto a cidade às escuras durante um dia inteiro. “Toda a gente pensava que era um ataque israelita, mas foi ele com uns amigos, porque fazia anos e ninguém lhe organizava uma festa, então foi atirar pedras à central e acabou a cortar a electricidade de Jenin. Teve direito a prisão e tudo, aos 13 anos foi para a prisão um dia para se acalmar”, conta a rir Micaela, a professora que o ajudou a terminar o curso do Freedom em Abril deste ano.

Muda de posição no sofá, cotovelos agora pousados nos joelhos e um brilho desafiante nos olhos castanhos. “Cada caso é um caso particular, não sei se sentiste isso quando estiveste lá… Jenin tem uns problemas, Hebron outros e ninguém sabe uns dos outros. Nós quase sentimos que era nossa obrigação andar a viajar e a contar histórias daqui e dali. Porque as histórias pessoais é que são a verdade, não as narrativas governamentais. E quando tu entras num grupo que faz teatro aprendes sobre responsabilidade, aprendes a ouvir, aprendes a pensar que afinal a sociedade pode ser um círculo e não uma pirâmide, uma bastante autoritária no caso da Palestina… E todas essas descobertas, por eles estarem num sítio tão conflituoso, são ainda mais valiosas, portanto eles tornam-se seres humanos muito sensíveis.”

Quem matou Juliano? Esperávamos que a conversa no espaço MOB, na Rua dos Anjos, em Lisboa, tivesse acontecido há mais de um ano com a Palestina como pano de fundo, quando o i viajou até à Cisjordânia e contactou a actriz para um encontro que acabou por não acontecer. Um ano antes disso, Micaela aparecera várias vezes no noticiário do horário nobre da RTP via skype, com um ar visivelmente cansado, repetindo diariamente que ainda não sabia nada do marido.

A 6 de Junho de 2012, Nabil al-Raee foi levado de casa às três da manhã por soldados israelitas acusado de ter matado Juliano Mer-Khamis, director artístico do Freedom e filho de Arna, a israelita que fundou o original teatro de pedra de Jenin, assim baptizado em honra das pedras que, nas mãos dos palestinianos, foram (e são) arma de retaliação a Israel durante a primeira Intifada.

Arna criou o espaço em 1987 para encorajar o entendimento entre os dois povos, juntamente com a mãe de Zakaria Zubeidi, líder das brigadas Al-Aqsa durante a segunda Intifada, que virou encenador do Freedom e que está hoje numa prisão palestiniana por escolha própria, para tentar evitar o destino de Juliano.

Micaela chegou a ser interrogada em Julho de 2011, depois de o actor e encenador ter sido morto por um atirador mascarado. “Tu entras na sala e dizem–te assim: ‘Então porque é que mataste o Juliano?'” Ri-se. “É assim mesmo que começa, é uma coisa completamente absurda. Tortura psicológica.”

Depois da nossa conversa, a actriz revelaria à audiência de dezenas, na conferência que o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM) organizou em parceria com o teatro A Barraca, que desde que Juliano morreu é essa a pergunta que mais lhe é feita. “Foi alguém que não gosta do trabalho que nós fazemos, que achava que ele não devia existir, não é?”, diz ao i com um sorriso triste. “Não sabemos quem matou o Juliano. Há quem diga que terá sido ideia de Israel, mão palestiniana…”

A morte de Juliano, cuja investigação Israel encerrou por “falta de provas”, trouxe a Jenin a sensação de que o que é construído em oito anos pode ser destruído num segundo. “Nós estamos a apostar na resistência pacífica e na educação alternativa, mas isso é um trabalho que demora muito, muito tempo e a ocupação é muito rápida.”

A juntar a isso, o refúgio de Zakaria na prisão por ter recebido ameaças de morte israelitas, na altura em que choveram rockets de Gaza em Telavive, deixou o campo de refugiados entregue a uma espécie de máfia que põe a descoberto o que o Freedom tenta há muito desvendar com as gerações mais jovens: que a cultura da vitimização, que não entra no Teatro da Liberdade, tem de acabar.

“Quando eu cheguei ao campo de Jenin era outro sistema, mais familiar. Agora está a tornar-se numa máfia… O Zakaria era, de certa forma, um líder da comunidade, era ele que conciliava as partes, o teatro é uma criação dele, e desde que ele saiu…” Micaela pausa. “No fundo é assim: é fácil culpar só a ocupação por acontecimentos como estes. Mas eu vejo–os como o decorrer natural da situação, de três gerações de ocupação, jovens sem perspectivas, líderes estúpidos a quem são dadas armas e dinheiro que não têm qualquer interesse que a educação exista, e provavelmente são esses que não têm interesse numa associação cultural no campo de Jenin… Está tudo assim embrenhado e muito complicado.”

Colonos em Melancias Quando Micaela partiu do aeroporto de Ben Gurion para Lisboa há duas semanas, a Cisjordânia estava a mergulhar numa nova ofensiva que piora a cada dia desde então. O desaparecimento de três rapazes israelitas do colonato Gush Eztion, nos arredores de Hebron, a 12 de Junho, levou o exército de Israel a iniciar buscas e detenções em massa em toda a Cisjordânia, fechando o distrito do Sul onde Nabil, o marido da portuguesa, nasceu.

Quase três semanas depois, o saldo de detidos ultrapassa os 500, com mais de dez palestinianos mortos e dezenas de milhares de casas revistadas. E os desaparecidos em paradeiro incerto. “No dia 17, quando eu já cá estava [em Portugal], houve uma coisa que veio nas notícias árabes, que era eles [soldados] a entrarem numa casa em Jenin, a partir tudo, a partir o chão da casa, e aparece a imagem de um senhor lá do campo com uma melancia nas mãos, partida ao meio, a perguntar: ‘Onde é que está o colono dentro desta melancia? Digam-me!’ Como é possível andarem à procura de um colono numa melancia, não é? O que eles estão a fazer basicamente é entrar e sair, a entrar e a sair… Aconteceu-nos o mesmo na altura do assassinato do Juliano.”

A estratégia do exército é fazer buscas, de preferência nocturnas, humilhar os palestinianos, ir embora e esperar que, no intervalo até à próxima busca, alguém pegue num telefone ou se movimente. “E os comandantes no terreno com toda a fé que foi um palestiniano fundamentalista. Há quem diga que foi a Mossad [uma das agências secretas de Israel] que os raptou, mas se foi, os comandantes não têm essa informação. E depois é tudo completamente aleatório e de acordo com os soldados que lá estão, que têm entre 18 e 21 anos, que estão completamente injectados de propaganda israelita e que acham que estes são os seus inimigos. Estão num estado de ansiedade muito grande, com medo de serem eles os raptados, com medo que alguém os ataque pelas costas…”

Dias depois desta conversa, o Shin Bet, a agência secreta para os assuntos internos de Israel, identificou Marwan Quasma, de 29 anos, e Amar Abu Eisha, 32, como os autores do rapto dos três israelitas, dois deles menores. Os palestinianos de Hebron com ligações ao Hamas são descritos na imprensa israelita como “terroristas fugitivos” e poucos dados foram avançados até agora para justificar a atribuição do rapto aos homens, à excepção do facto de o exército estar à procura deles desde que os colonos desapareceram.

“Se reparares”, diz Micaela, “logo depois do desaparecimento saem notícias em árabe a dizer que a Jihad Islami assume responsabilidade por este acto. Quando o que tu vês no anúncio deles é simplesmente eles a dizerem que isto aconteceu por causa da greve de fome dos prisioneiros [palestinianos sob detenção administrativa de Israel]. Ninguém disse ‘Fomos nós’. De repente tens o [secretário de Estado dos EUA, Jonh] Kerry nas notícias americanas a dizer que responsabiliza o Hamas. E tens, de todos os lados, estas especulações. Ninguém está a assumir o rapto. Eu também posso especular e dizer de quem é verdadeiramente a responsabilidade…”

Não levou muito depois do incidente até o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vir culpar o Hamas, o grupo de resistência que gere a Faixa de Gaza desde 2006 e que, recentemente, se reconciliou com a Fatah de Mahmoud Abbas – líder da Autoridade Palestiniana, o único governo dos territórios ocupados reconhecido pela comunidade internacional.

Depois de oito anos de relações cortadas, as duas facções políticas formaram um governo de unidade palestiniana, o que enfureceu Netanyahu e o levou a pôr fim às já decadentes negociações de paz mediadas pelos EUA que estavam a decorrer desde o Verão. Um mês e meio depois, os adolescentes desapareceram. “Isto é uma altura que é ideal, que é perfeita”, diz a encenadora. “É pura dramaturgia. Por isso é que eu gosto tanto de estar em Jenin e de trabalhar em teatro. Na Palestina parece-me tudo uma peça.”

Terceira Intifada? Na primeira semana após o desaparecimento de Naftali Frankel, Gilad Shaer e Eyal Yifrah, um soldado israelita destacado em Jenin disse o que muitos suspeitam: a operação na Cisjordânia estava a ser planeada “antes do rapto” e, portanto, não está ligada ao incidente. “Temos estado a tentar agitar a população”, disse ao jornal “Hadrei Hadarim” sob anonimato.

“A provocação existe sempre”, responde Micaela. “Por exemplo, durante as negociações de paz houve seis assassinatos ao estilo de execução por parte do exército de vários jovens entre os 18 e os 24 anos no campo de Jenin. É muito difícil lidar com esse tipo de coisas, porque sabes que, para os media, é controverso fazer notícias…” “Sobre a morte de palestinianos?”, perguntamos. “Sim, isso é certo, em todo o mundo um judeu equivale a três mil palestinianos. Estes seis miúdos que foram mortos podiam muito bem ter sido só levados e presos, percebes? É óbvio que é provocação. E é o dia-a-dia de Gaza e da Cisjordânia.”

A crescente inflamação na região, a que muitos chamam conflito mas que Micaela sublinha constantemente ser “ocupação e apartheid” (“Não é um conflito quando é só um lado a violentar outro”), tem feito surgir mais e mais previsões de uma terceira Intifada. Já o diziam os habitantes de Hebron ao i há um ano. “E nós estamos à espera disso há pelo menos três”, acrescenta agora a portuguesa. “Até porque é a tradição, sete anos de ‘paz’ e depois…”, brinca numa referência às revoltas, a primeira iniciada em 1987, a segunda em 2000.

Desta vez, contudo, o alvo não será só Israel. “Toda a gente diz que a próxima Intifada vai ser contra a Autoridade Palestiniana. A versão dos palestinianos é que a Autoridade é a mão de Israel. [Mahmoud Abbas] nem sequer foi eleito, quem foi eleito foi o Hamas, que nem teve oportunidade de também fazer as suas asneiras.” O sorriso dá lugar a um ar soturno. “Por exemplo, se o exército israelita quer entrar em Jenin, liga para a Autoridade e todos os soldados palestinianos entram no quartel para os israelitas entrarem. Portanto os palestinianos estão a defender quem? Quando alguém é procurado pelos israelitas, eles ligam aos palestinianos para o irem buscar. E hoje, como há monitorização de direitos humanos nas prisões de Israel mas não nas palestinianas, as pessoas até preferem ser presas por um israelita. Agora quanto a uma terceira Intifada… Isso vai depender, porque é um povo muito cansado.”

Teatro, Fórmula de Liberdade Uma adolescente está a estudar para o exame de História, precisa de passar no teste, sente a pressão da família. Eventualmente acaba por ceder ao cansaço, adormece e tem um sonho. Chama-se Palestina e está doente, internada no hospital. O pai é autoritário e gordo, chama-se Mundo Árabe. Um homem anda à sua volta coberto de casacos e carregado de papelada. Chama-se Europa. Outro homem vai entrando e saindo do quarto de hospital, com um chapéu de cowboy texano e um fato de super-homem, com um cifrão no lugar do “S” ao peito. É os Estados Unidos. Quem nunca abandona a beira da cama é Israel, que, sentado numa cadeira-de-rodas com a bandeira azul e branca ao colo, se levanta miraculosamente sempre que fica a sós com a Palestina para a espicaçar e destratar.

Ninguém sabe como acaba este pesadelo. Posto em cena por uma jovem aluna do Freedom o ano passado em Jenin, a peça é um debruçar irónico e requintado sobre a realidade dos palestinianos desde meados do século passado. “Na Europa as pessoas se calhar ainda têm esta ilusão de que somos livres”, declara Micaela com uma ponta de desafio ao público que se concentrou no MOB. “Na Palestina não. E o palco torna-se um treino para a vida, é um laboratório onde se controla o ambiente, as variáveis… É a verdadeira fórmula de liberdade.”

Micaela sempre desejou que o teatro servisse para alguma coisa e parece ter encontrado o que procurava em Jenin. Antes de se mudar para a Palestina, estava a trabalhar no Oeste da Irlanda, a investigar sobre perda de identidade para uma peça, quando leu numa revista de teenagers uma entrevista a uma jovem que estava a estudar no Freedom.

O bichinho começou a ganhar forma aí e no momento em que Micaela pensou contactar o teatro, uma colega israelita com quem tinha estudado em Paris ligou-lhe. Precisava de mais uma mulher para um espectáculo de clown que seria uma paródia a Israel. A portuguesa aproveitou o convite para visitar o Médio Oriente pela primeira vez: encontrou-se com as amigas em Telavive e depois rumou a Jenin para conhecer Juliano e dar o workshop no campo de refugiados. A tour europeia que começou a seguir com as colegas acabaria subitamente. “Quando fui lá essa primeira vez não conseguia dormir, vi injustiças incríveis, como é que podia saber tão pouco sobre o que se passava? Portanto, quando percebi que a peça delas de alguma forma desculpava Israel, deu discussão. Eles têm o privilégio da ignorância. E muita gente não percebe que ser cinzento também é um acto político. Acabei ali mesmo a tour, até parei um espectáculo a meio, coisa que nunca pensei que viria a fazer na minha vida.”

Há uns meses, uma delas ligou a Micaela. Queria pedir desculpa, declarar que dantes era ignorante, que agora quer ir a Jenin. Porque o teatro é liberdade, deverá acolhê-la. O pesadelo da Palestina ainda não terá acabado, mas o Freedom, inshallah, vai estar vivo e, em 2015, trará pela primeira vez a Lisboa os seus ensinamentos de resistência cultural.

Link original: http://www.ionline.pt/artigos/mundo/freedom-theatre-palestina-tem-sonho-chamado-liberdade/pag/-1

PDF: Micaela Miranda I Micaela Miranda II Micaela Miranda III Micaela Miranda IV

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