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Partindo dos recentes eventos no Egipto, o historiador que é o grande especialista em assuntos árabes em Portugal acabou a oferecer uma lição essencial para compreender a Primavera Árabe
mursi

António Dias Farinha é reconhecido como o grande especialista em assuntos árabes e islâmicos em Portugal. Viveu e estudou em Marrocos, no Egipto e na Tunísia e já visitou quase toda a região do Médio Oriente e Norte de África. No Instituto de Estudos Árabes, que dirige na faculdade de letras de Lisboa, partimos da recente deposição de Mursi para uma avaliação da Primavera Árabe. Como bom historiador, abstém-se de opinar. Acabámos a falar de meteorologia, “garante da vida humana e das revoluções”. Uma lição de História para compreender a actualidade.

Os recentes eventos no Egipto trazem a questão: a Primavera Árabe falhou?

Isto é uma vontade dos povos em alterar uma situação quase imutável durante décadas. Estes países conheceram ditaduras que não se renovavam. Veja-se o caso da Tunísia, onde depois da ascensão ao poder de [Habib] Bourguiba, o seu primeiro- -ministro [Zine El Abidine] Ben Ali tomou conta do poder, casou com uma mulher do clã Trabelssi – que era a cabeleireira dele – e apoderaram-se do país de maneira exclusiva. Essa falta de renovação de dirigentes, as ditaduras, os problemas económicos levaram o povo à revolta.

Primeiro na Tunísia, depois no Egipto.

No caso do Egipto, a monarquia terminou com uma revolução do exército em 1954, do general [Muhammad] Naguib e do coronel [Gamal Abdel] Nasser, e passa a haver um regime militar sem renovação: de Naguib passa a Nasser, depois a [Anwar al-] Sadat e depois [Hosni] Mubarak. Sempre um regime militar. E com o povo a sentir-se gradualmente mal governado, criou-se o âmbito de uma revolução.

Que no Egipto vê ser eleito Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, em 2012, deposto pelo exército este mês.

A Irmandade Muçulmana foi fundada em 1928 por Hassan al Banna e propunha um regresso às normas islâmicas dos Salaf, dos “antigos”, do período de Maomé, ao estado islâmico teocrático instituído no tempo do profeta entre 622 e 632, com leis ditadas pelo Alcorão e pela Suna. A partir dessas normas formou-se a Sharia, que é o trabalho legislativo que se sucedeu através do ijma, o consenso, do qiyas, a analogia, e de códigos importantes das principais escolas jurídicas. A Irmandade propunha esse regresso ao salafismo, contestou Nasser, foi perseguida, vários irmãos foram mortos, outros expulsos, levando-a a espalhar-se pelos outros países árabes e islâmicos. Constituíram-se células e criou-se o que, em princípio, era um movimento dos irmãos muçulmanos, que se foi organizando com características jurídicas e políticas mas sobretudo sociais e religiosas. Evidentemente tornou-se uma organização bem formada, com quadros, objectivos e métodos. Mas, tendo sido fundada no início do século XX, hoje apresenta-se mais conservadora, algo antiquada, em relação aos jovens e às propostas mais inovadoras da dinâmica social actual.

Para além dela existe ainda o Nour, o outro grupo salafista do Egipto.

De tendência mais radical do que a Irmandade. O mesmo se deu na Tunísia, com o partido Ennahda, da Irmandade, e partidos recentes do tipo Nour, que significa “luz”. E hoje existe esta oposição entre os velhos partidos e a vontade de mudar dos jovens, que beneficiam da tecnologia, SMS, Facebook, que lhes dá capacidade de mobilização, ainda que sem a organização da Irmandade. Este é um fenómeno essencial para compreender o Egipto de hoje. Mas não só.

Quais são as outras peças em jogo?

Além da Irmandade e desta juventude laica – que quer progresso, educação, saúde, oportunidades de emprego – existem outros grupos liberais laicos e o partido dos cristãos coptas. Essas forças estão todas no terreno e sem as compreender não se explica o Egipto. Mas existe uma outra, pela qual se deve até começar, que é um exército poderosíssimo, um dos grandes do mundo! São centenas de milhares de homens, sempre acima de 500 mil para 85 milhões de habitantes, muito bem armados, sobretudo pelos americanos.

Daí os EUA não assumirem a deposição de Mursi como um golpe militar.

Exactamente. Eles condicionam muito o Egipto através da estrutura militar. Os militares sabem que quem paga são os EUA e que, se se desagregarem, perde-se a estrutura político-social, o país fica esfrangalhado. Desde a revolução contra a monarquia, com Naguib, com Nasser, com Sadat, com Mubarak, o exército tornou-se uma estrutura extremamente poderosa e coesa. É profissional, organizado, com grande disciplina, com armas actualizadas…

Após Mubarak cair, a Junta Militar que assumiu o poder interino foi contestada nas ruas pouco depois. Desta vez não há tanta contestação aos militares?

O que se passou em 2011? Expulsou-se Mubarak, o exército tentou manter a coesão e conseguiu. Nem podia ser de outra forma, porque é muito mais forte do que as outras forças… Organizaram-se eleições livres e ganhou a Irmandade contra outros grupos, nomeadamente os que formam a aliança hoje conhecida como Tamarod.

As eleições foram consideradas limpas.

De início, de facto, as eleições foram livres e Mursi subiu ao poder com 51,7% dos votos. O exército acabou por reconhecê- -lo como presidente, mas vemo-lo agora com reticências. Não se contentou com ser presidente, tentou apoderar-se dos restantes mecanismos políticos, tentou influenciar a dimensão legislativa através da assembleia do Senado e tentou intervir no poder judicial. E a maioria da população revoltou-se. O Tamarod conseguiu, repare-se bem, 22 milhões de assinaturas contra Mursi, que teve apenas 18 milhões de votos! Agora lembremos que, de acordo com os cálculos mais isentos, pelo menos 15 milhões de egípcios manifestaram-se no país e na praça Tahrir, no Cairo, onde em 2011 foi feita a primeira revolução. Foram muitos mais do que antes. O Tamarod ligou todos contra a Irmandade, incluindo curiosamente o Nour.

Mas quando Mursi é deposto, o Nour muda de posição e retira-se das negociações para um governo interino?

Só depois. O Nour esteve presente na nomeação do presidente interino do Egipto e presidente do Tribunal Constitucional [Adli Mansour]. Só se retirou quando Mohammed ElBaradei [ex-director da agência internacional de energia atómica e Nobel da Paz] foi proposto para primeiro-ministro; não é aceite e acaba como vice-presidente.

Não é aceite pelo Nour?

Pois, consideram-no demasiado liberal, de tendência demasiado afastada da religião. Mas o Nour foi o segundo mais votado nas primeiras eleições. Com a sua retirada, os outros teoricamente ficariam em minoria, simplesmente a pressão das ruas continuava muito grande, muito maior que os apoiantes da Irmandade…

Qual é a possibilidade de existirem estados laicos no mundo árabe?

Quando falamos em estados laicos na região é mais no sentido de não integrarem a Sharia na Constituição. Partidos laicos não quer dizer que não sejam religiosos, que não sejam muçulmanos. São muçulmanos na sua maioria, alguns são cristãos… Não são partidos anti-religião, só não arvoram a bandeira da religião à sua frente.

São religiosos mas querem religião e política separadas.

Ora isso choca com a tradição do Al-Islam din wa dawla, “o Islão é religião e é Estado”. E é nesta fronteira que o Egipto vive, entre os que reivindicam o Islão como principal informador da Constituição e da política e aqueles que pretendem organizar um estado liberto da teia religiosa que envolve a organização política. O problema está depois na aplicação ao nível judicial… A aplicação da lei como é que se faz? Em função de leis gerais ou da Sharia estritamente? Entra-se em ruptura? É também assim que se explica esta revolução.

Fala desta segunda no Egipto agora?

Sim. Mas note-se que a Irmandade continua a ter capacidade de resistência…

Mas volta agora a ser perseguida, como na era Mubarak e anteriores…

Naturalmente não aceita esta destituição, Mursi é um dos seus, foi democraticamente eleito? Revolta-se. E agora? Agora é um problema terrível. A Irmandade continua poderosa, mas os seus dirigentes vêem-se privados de liberdade. Começa a ser atacada e começa a haver problemas nas ruas.

Que já estão a registar-se.

Sim. Tudo indica que o Tamarod é bastante mais numeroso, no entanto, não podemos minimizar a Irmandade, porque está bem estabelecida, enquanto os outros dependem de uma organização ad hoc . É isto que está a acontecer e não é fácil antever o fim. Os restantes países vêem tudo muito difícil, porque não há dúvida de que Mursi foi eleito democraticamente e agora deposto. Mas os Estados Unidos e a Europa ficam divididos entre apoiar o presidente eleito ou uma revolução popular com intervenção do exército, quando se aduz que a legitimidade [de Mursi] estava a tornar-se ilegítima pelo número de poderes que ele ia chamando a si.

A Primavera Árabe nasceu na Tunísia no final de 2010. Como está o país hoje?

A Tunísia é muito interessante, e em vários aspectos semelhante a Portugal, ainda que menos populosa e muito pobre, dependente do turismo.Tem um grau de educação grande no mundo árabe, com fundamentos antigos, desde o século XIX com o famosíssimo colégio Sadikia… Na Tunísia também se formou um partido da Irmandade, o Ennhada, que ganhou as eleições [após Ben Ali ser deposto], e existem os restantes partidos. Só que há um factor de estabilidade que tem permitido o diálogo, que é a antiga e profunda amizade entre o presidente laico e liberal [Moncef] Marzouki e o chefe da Irmandade no país, o sr. [Rachid] Ghannouchi. Em 40 anos essa amizade nunca foi quebrada, portanto a Irmandade tenderá a temperar as relações de acordo com o seu chefe e Ghannouchi com a tendência mais liberal do presidente.

Ao Egipto e à Tunísia seguiu-se a Líbia, o único país onde houve uma intervenção estrangeira até agora. A Síria está numa situação ainda pior hoje e para já não há consenso. Essa intervenção foi motivada, mesmo que não assumidamente, pelo petróleo?

A Líbia é um caso diferente da Síria também por isso. O que acontece na Líbia é que, desde a deposição do velho rei Idris, o coronel [Muammar] Kadhafi tentou organizar um país sem governo. O país dependia dele e dos seus delegados, através dos comités populares de base. O seu lema era “não há democracia sem assembleias populares de base”, que ele tentou definir no chamado Livro Verde. Não havia ministros, não havia embaixadas, eram pelouro da jamahiriya… Ele conseguiu fazer isso com os milhões do petróleo, fez projectos faraónicos, gastou dinheiro a rodos, chamou exércitos particulares, África deu-lhe milícias do exército, tudo sem uma verdadeira organização… Com a Primavera Árabe mesmo ao lado, a Líbia encontrou-se sozinha, sem aliados, porque todos sabiam que a única coisa que ali existia era a vontade do ditador e muito dinheiro do petróleo. E todos queriam esse dinheiro. Como era apetecível do ponto de vista da extracção de riquezas minerais e como não existia organização política, foi relativamente fácil chegar ao consenso de intervir. Os próprios líbios também se encarregaram de alguns ataques aéreos e a milícia de Kadhafi desagregou-se, fugiu para o Mali?

Hoje o país está destruído e fracturado.

Está em processo de organização. Apesar de tudo, havia quadros políticos, pessoas no estrangeiro… Havia um delegado cá, hoje embaixador da Líbia em Portugal, Ali [Ibrahim] Emdored, que, compreendendo a situação, aderiu ao movimento de oposição a Kadhafi, como grande parte dos elementos líbios no exterior.

Fala de representantes diplomáticos?

Representantes diplomáticos, quer dizer… representantes do líder. Que aderiram ao movimento por ser evidente a desagregação completa num país sem ministros e com um exército de mercenários.

Mercenários que continuam no país? Diz-se que a quantidade de armas nas ruas desde então é absurda…

Nem se conhece exactamente o número. Em muitos aspectos, o país ficou não só entregue a esses grupos como às tribos antigas. No meio da desagregação social e política, o povo ligou-se às tribos, como Kadhafi se ligou à sua tribo de origem, que de resto o apoiou até ao fim. Além disso o país está dividido entre a Líbia do Oriente, com capital em Bengasi, e a Líbia do Ocidente, com capital em Trípoli da Líbia. E ainda se pode falar no Sahara, uma grande zona de nómadas com tribos poderosas instaladas nesses oásis, onde é difícil actuar a não ser por via aérea, porque senão é preciso percorrer milhares de quilómetros para atingir a costa.

Dizia que a Líbia é um caso distinto da Síria. Perante o que tem acontecido e tendo em conta os rebeldes que lutam contra o regime, a Síria está melhor com ou sem Bashar al-Assad?

A Síria é completamente diferente da Líbia porquê? Para começar, existe uma organização política. Depois, cerca de 10 a 12% da população é ligada a uma facção religiosa xiita que são os alauitas – grupo de certa forma aproximado dos duodecimanos do Irão [que crêem na existência dos doze imãs] – diferente da maioria sunita. E existem outros grupos, como os cristãos, uns 5% da população. A Síria é um país organizado desde sempre, com uma civilização muito antiga, com uma organização clara do ponto de vista social e onde o exército estava nas mãos da minoria alauita e do presidente Assad.

Primeiro Hafez, agora o filho Bashar.

Sim. Ou seja, há uma base muito forte do poder nas mãos da minoria alauita e do clã Assad. Uma organização poderosa, bem armada e que dispõe de apoios importantes do exterior. A Síria encontra-se implantada, repare-se bem, entre Líbano, Turquia, Jordânia e Israel, e com acesso ao mar, com portos de mar. Tem uma importante base que é a grande base naval da Rússia no Mediterrâneo, portanto há uma ligação forte e antiga entre ambos. Os interesses da China ligam à Síria através do Irão, que abastece a China de petróleo e que é aliado próximo da Síria pelo xiismo e por ser contra Israel. Portanto, logo à partida, dispõe de duas potências do Conselho de Segurança [da ONU], Rússia e China, e o apoio dos xiitas do Líbano: o Hezbollah e o Amal, o outro partido xiita. E não esqueçamos que o Hezbollah tem muita força.

E que já assumiu que está a lutar ao lado das forças de Assad na Síria.

Sim. E há ainda ligações ao Iraque, que tem também um governo xiita, da mesma facção do Irão. Do Iraque ao Líbano vai um corredor muito importante. E tal como no Egipto, há um caso com Israel. O exército egípcio opunha-se a Israel mas com os acordos de Camp David, em que Israel se comprometeu a deixar o Sinai – que deixou! – estabeleceu-se a aceitação da existência de Israel pelo Egipto.

É o grande país árabe a reconhecê-lo…

E por isso Israel observa estes movimentos com suspeição. Porque repare-se: por um lado convém-lhe que sobretudo a Síria esteja fraca, mas talvez não lhe interesse tanto que venha a ser dominada por uma facção sunita que teria ligações preferenciais com o Hamas de Gaza, ficando Israel entre duas facções com facilidade em se apoiarem. É um xadrez muito complicado, onde as peças mais importantes dizem respeito à dimensão internacional e, por outro lado, à organização dos alauitas. Até ao tempo de Hafez, a hierarquia militar e do Estado propriamente dito estava nas mãos deles e do clã Assad. E mais, conseguiram ligações à oligarquia do sunismo e dos cristãos. Ou seja, era um sistema económico que baseava a sua força também na protecção ou apoio das minorias ricas sunitas, cristãs e outras.

Essas ligações ainda se mantêm?

Claro! As ligações do dinheiro são muito fortes…

Há pouco falávamos de laicismo; há um país neste puzzle, tradicionalmente laico, que está a braços com uma espécie de Primavera Árabe, que é a Turquia.

Convém notar que a Turquia não é um país árabe, é um país turco, e portanto tem um papel à parte no mundo árabe e uma posição própria no mundo islâmico. O mundo islâmico são 57 países, mais de mil milhões de pessoas; o mundo árabe são 22 países, 250 milhões de pessoas. A Turquia é um grande país com grandes tradições desde o século XIII. O império Otomano foi um dos grandes superpoderes dos séculos XVI e XVII, no tempo de Suleiman o Magnífico. Mas para os dias de hoje, o que nos interessa saber é que na I.a Guerra, a Turquia aliada da Alemanha foi vencida, mas conseguiu uma grande vitória por Mustafa Kemal Ataturk na península de Gallipoli, quando ingleses, australianos, neozelandeses e franceses quiseram tomar Istambul e o general Ataturk os venceu, conseguindo que eles fossem expulsos dessa península em frente de Istambul. Isso não significa que ingleses e franceses não se tenham apoderado do império Otomano. Ficou essa pequena parte na Europa com capital em Istambul, e Anatólia, o resto foi tomado por ingleses e franceses, que estabeleceram reinos independentes com a Transjordânia, numerosos protectorados, como o Líbano e a Síria, e que gradualmente formaram um lar nacional judaico após a declaração de Balfour de 1917.

Embrião do actual estado de Israel.

Sim. E surge a Turquia organizada por Ataturk como um país verdadeiramente laico, separando religião e Estado. Os muçulmanos não podiam surgir como tal nas ruas, nem cristãos, nem qualquer religião. O culto confinava-se às respectivas mesquitas e igrejas, a antiga basílica bizantina de Santa Sofia foi transformada num museu… A laicização foi acelerada, aboliu-se o califado e adoptou-se o alfabeto ocidental em substituição da escrita árabe. E o exército passou a ser cada vez mais forte, o esteio da vitória sobre Gallipoli.

Há quem diga que a Turquia de Ataturk está sob ameaça, considerando a ingerência de religião na política pela mão de Recep Tayyip Erdogan.

Exactamente. Já houve até um primeiro–ministro anterior, [Necmettin] Erbakan, que foi afastado por ser islamita. Erdogan procura fazer uma revolução no sentido do islamismo, muito moderado comparado com a Irmandade Muçulmana, mas ainda assim ligado à religião. Um dos aspectos muito chamados à atenção é que a mulher do presidente [Abdullah] Gül e a do primeiro-ministro Erdogan usam o véu muçulmano. É uma assunção forte da sua cultura islâmica, baliza logo fronteiras. Essas marcas ligadas ao islamismo provocaram a revolta da praça Taksim, à semelhança e certamente por influência das outras revoluções no mundo árabe e noutros sítios. Mais uma vez pela mão da juventude, que se opõe a essa islamização – mesmo que suave – de Erdogan. Agora como se encara o presente? Por um lado, há uma melhoria da situação económica, 6% de aumento do PIB anual. Por outro, um exército poderoso, herdado da Guerra Fria em que a Turquia era aliada preferencial dos EUA. Erdogan tem muito prestígio, já foi várias vezes sufragado nas urnas, conseguiu essa revolução económica e leva a cabo uma política internacional hábil.

Fala da aposta na adesão à UE?

Sim, mantém essa ligação preferencial à Europa e também uma ligação preferencial às repúblicas ex-soviéticas turcófonas muçulmanas, através do pacto de Ancara, feito logo em 1990 aquando da desagregação da URSS: Azerbaijão, Turquemenistão, Cazaquistão, Uzbequistão e Quirguistão. Depois ainda outra ligação ao antigo império Otomano, que vai desde a Argélia ao Egipto e ao Iraque. A Turquia gosta de se apresentar como país líder destes antigos grupos, é evidentemente uma carta a jogar por Erdogan, uma estratégia de três vértices, não esquecendo que os Balcãs – Bósnia-Herzegovina, Macedónia, obviamente a Albânia e sobretudo o Kosovo – são de influência turca.

A democracia como a conhecemos é implementável no mundo árabe ou é um conceito imposto pelo Ocidente?

O problema da democracia tem a ver sempre com a famosíssima frase: “A democracia é o pior dos regimes com excepção de todos os outros.” [risos] De facto ainda não se encontrou uma via melhor. E isso acaba por encontrar uma verificação no Egipto hoje. A destituição de um presidente eleito democraticamente suscitou uma revolta popular, qualquer que seja o futuro do país do ponto de vista político nos próximos dias, meses, anos, hoje a legitimidade é reconhecida, pelo menos, por uma grande parte dos egípcios e por parte significativa do mundo ocidental – que se encontra confrontado com este dilema de apoiar ou não a revolução contra um presidente eleito. Mas até pelo facto de ter suscitado revoltas contra Mursi e contra a destituição dele mostra que já existe uma certa adesão [à democracia].

A Primavera Árabe deu razão aos cépticos que não crêem na mudança de status quo no mundo árabe?

Esses países conhecem as quatro estações do ano: a Primavera, o Verão, o Outono, o Inverno… [risos]

E de volta à Primavera…

Isso. Temos sempre esperança nos calores do Verão, esperemos que o bom tempo regresse e que as estações venham a conhecer, também no mundo árabe, as suas quatro expressões que são, no fundo, o garante da vida humana. A vida foi criada mediante condições climáticas favoráveis aos humanos.

(edição impressa do jornal i, 18 de Julho 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Dias Farinha I Dias Farinha II Dias Farinha III Dias Farinha IV

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