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Campo beduínosAs comunidades milenares de nómadas da Palestina são hoje as mais perseguidas nos territórios ocupados por Israel. Joana Azevedo Viana visitou uma das 20 que restam na Cisjordânia, sob ameaça de expulsão

Umzaid tem 52 anos e vive num pedaço de terra batida (e esquecida) rodeado por três colonatos entre Jerusalém Oriental e Ramallah, na Cisjordânia, há 40. Na tenda principal do acampamento da sua tribo, a Al-Tabana, fala sem parar enquanto Inaz, uma palestiniana que me acompanha para quase todo o lado na Cisjordânia, traduz as suas queixas: há uns 20 dias, foram roubados quatro cavalos do colonato Mishor Adumim, que espreita o acampamento do cimo de uma das colinas em nosso redor.

“À meia-noite, eles [colonos israelitas] vieram aqui, os homens estavam a dormir e só uma das mulheres é que acordou.” A medo, a mulher decidiu sair da sua tenda para ver de onde vinha tanta luz e barulho. “Eram vários carros da polícia, colonos, militares… E um dos colonos começou a bater-lhe. Ela só queria proteger o filho, mas acabou a ser agredida e ameaçada. Disseram-lhe que se voltássemos a roubar-lhes cavalos, eles iam voltar, incendiar todas as nossas tendas e matar-nos a todos. Mas nós não roubámos nada!_Eles é que nos roubam. E ela ficou tão traumatizada que teve um colapso nervoso. Só ontem recomeçou a falar.”

Os beduínos estão no fim da hierarquia dos povos que hoje habitam o Médio Oriente. Até à criação do Estado de Israel, em 1948, estas comunidades nómadas milenares viviam no deserto do Negev, no sul do país; assim que Israel nasceu, começou a perseguição.

Se há algumas décadas existiam dezenas de milhares de beduínos – mais de metade dos quais de nacionalidade israelita, ainda que nunca reconhecidos pelo país natal –, hoje em dia restam 20 comunidades, que desde a construção de colonatos israelitas na Cisjordânia (“ilegais” aos olhos da comunidade internacional) vivem sob constante ameaça de expulsão do território palestiniano ocupado.

Umzaid não é o nome da mulher que está a contar-nos a história mais recente de violência contra a sua comunidade, a única instalada aqui, em Ein Duyok. Ela não quer ser vista nem quer dizer-_-nos o seu nome, pelo que escolhe este: “mãe de Zaid”, o filho mais velho da matriarca desta família de cem beduínos. “Tenho mais quatro filhos e duas filhas. A segunda mulher do meu marido só lhe deu uma filha até agora, estou a fazer alguma coisa bem”, diz a rir e com um brilhozinho nos olhos. “Os beduínos têm muito orgulho em sê-lo”, comentará depois desta conversa Marco, um italiano da Oxfam que ajuda esta e outras comunidades enclausuradas nestes descampados entre colonatos a sobreviver.

A melhor forma (única?) que a confederação internacional de ONG tem de ajudar os beduínos é ajudá-los a criar novas formas de sustento. Tradicionalmente, estas tribos dependem do gado, que nos últimos anos foi, em grande parte, morto ou confiscado por israelitas. Isto e a imposição de regras pela Administração Civil Israelita (ACI) a estas famílias – como não poderem abrir fossas, montar novas tendas nos seus acampamentos ou puxar ligações de electricidade – forçam os homens a trabalhar nos colonatos.

“É a grande ironia: Israel destrói o sustento destas pessoas, forçando-as a procurar trabalho nas cidades de quem mais os maltrata”, diz Marco. “E lá estes homens só podem trabalhar nas obras e nas limpezas; lá, os beduínos valem menos que imigrantes ilegais que vêm da Tailândia e da Europa de Leste.”

Antes da longa caminhada sob um sol impiedoso para chegar a Ein Duyok, depois de apanharmos Marco e dois colegas da Oxfam numa bomba de gasolina à saída de Jerusalém, é-nos explicado que provavelmente não vamos ver mulheres no acampamento. Os beduínos têm regras restritas quanto às mulheres (razão pela qual Umzaid não quis dizer o seu nome nem ser filmada, ainda que a tenhamos convencido a tirar uma foto de cara tapada). O aviso faz-nos ser apanhados de surpresa quando chegamos: só mulheres e crianças nos esperam. “Os homens devem ter ido ao mercado de Ramallah vender queijo”, justifica Marco.

Uma das lutas da Oxfam junto das comunidades é convencer os homens a deixarem que as mulheres vão a Jericó aprender a fazer carpetes e outros produtos de lã, que depois são vendidos em mercados da Cisjordânia e até na União Europeia, depois da assinatura de um acordo com a Autoridade Palestiniana. A outra batalha é conseguir levar as crianças à escola: só existem duas exclusivas para crianças beduínas e, mesmo para chegarem a essas, têm de viajar quilómetros todos os dias.

Aqui, as crianças estão extasiadas com a visita. Pedem fotos, mas escondem a cara com vergonha. Pegam-me na mão e levam-me aos seus quartos. Agarram uma galinha pelo rabo e riem muito. A dada altura, a protagonista da história de Umzaid aparece, entra na tenda central onde estamos abancados no chão e senta-se escondida atrás das outras mulheres. Quando tento falar com ela, foge. “Vivemos em pânico”, justifica Umzaid. “E vem aqui gente falar e tirar fotos, mas ninguém nos ajuda”, lamenta-se, com Marco a comentar em surdina que “não é bem assim”.

Hoje está sol e nenhuma nuvem no céu. Mas os invernos na Cisjordânia são rigorosos e Umzaid parece desejar que comece a chover torrencialmente para mais uma prova das injustiças a que estão sujeitos. “Há uns meses, as nossas tendas ficaram destruídas pelo mau tempo e não nos deixam arranjá-las. Estamos a sufocar num espaço tão limitado. Vejam para crer.” Acabamos por não ver muito. A visita termina abruptamente quando, ao longe e vindas do sol, começam a chegar as carroças dos homens. Umzaid olha para o infinito e diz:_“Nós também somos humanos.” São humanos e o sonho que lhes comanda a vida é poderem um dia voltar para o Negev.

(suplemento LiV do jornal i, 25 de Maio 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Beduínos I Beduínos II

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