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Três arquitectos entre part-times criaram a pior excursão do Porto para alertar para os problemas da cidade. “Não fazemos turismo de desastre. A realidade é que é um desastre”
Vista da horta comunitária “Musas da Fontinha”

Vista da horta comunitária “Musas da Fontinha”

Sobra sempre mês no fim do dinheiro dos três arquitectos que criaram as Worst Tours Porto. Não que eles as façam para rechear a carteira. Entre teletrabalho, distribuição de panfletos, ilustrações e outros biscates, Gui, Isabel e Pedro fazem deste turismo alternativo passatempo, não profissão. Quem responde ao “cumbite” no site é que decide o que quer pagar.
A ideia não é peregrina mas já peregrinou para outras bandas. “Há uns meses duas raparigas vieram fazer a tour. Estavam sem ideias para a tese do curso de Arquitectura e ocorreu-lhes viajar por cidades europeias para uma comparação arquitectónica. Depois da visita disseram que também há lugares destes na ilha delas e que iam montar a Worst Tours Taiwan”, contam Gui e Pedro a completar as frases um do outro, ao lado de Isabel, a arquitecta de poucas palavras, proferidas quase em surdina.
Estamos no Marquês, ponto alto do Porto, de onde partem todas as Worst Tours. Daqui é sempre a descer. “São as piores para não defraudar expectativas”, explica Gui com sotaque carregado do “Puorto”, a rir, quando questiono a origem do nome de baptismo das excursões – nascidas há “alguns meses” como “micro–resposta ao êxodo forçado, à austeridade e à destruição económica neoliberal”.
À nossa frente, três painéis de lona gigantes pendem da fachada de um edifício com a “cronologia recente e incompleta das mortes em operações policiais” dos últimos meses por todo o país: Ruben, Flávio, Elson, Tiago, Nuno, Álvaro, todos entre os 18 e os 30 anos, abatidos na Amadora, em Portimão, Setúbal, Gondomar…
É daqui que partimos. “Este prédio está no centro de uma disputa de heranças e um dos herdeiros decidiu criar uma associação, a Casa Viva, onde há encontros e concertos todas as semanas”, explica Gui quase aos berros, para se sobrepor às vozes das dezenas de jovens que hoje decidiram vir apanhar sol nesta praça. “Com que então é daqui que vem a música que ouço às vezes…”, observa um dos turistas do grupo.

Degradação Esperava-se uma visita intimista e é essa a primeira expectativa a sair defraudada. Não que nos importemos. “Ontem fomos contactados por um britânico para fazer a tour”, disse–me o trio antes de eu chegar ao Porto, achando que seríamos só nós. “Onde é que vamos encontrar-nos mesmo?”, envio por SMS. “Marquês!Linha Amarela.” “Ah, bem me parecia que não era a Praça da Liberdade…” “Não faz mal. Lisboetas perdidos são o nosso prato preferido!”
Ao britânico nem vê-lo. À hora marcada aparecem dois eslovacos, um francês, dois luso-descendentes do Luxemburgo e dois portugueses. “Despachem-se, são sete!”, grita Pedro num telefonema àGui, depois de nos ter deixado num café das redondezas a falar sobre o projecto.
Corremos para o Marquês. Feita uma curta apresentação, os três arquitectos começam a discutir que rumo tomar. É uma das marcas destas visitas: nunca há caminho predefinido. Avisados os presentes de que a discussão é “normal” – para adequar o passeio ao que cada um conhece e ao que cada um quer conhecer – Pedro agarra num mapa.
“Se repararem, parece uma mão aberta”, diz mostrando as cinco ruas assinaladas com marcador amarelo fluorescente, que desaguam na Baixa. “Estamos numa zona que há 200 anos era a fronteira entre a cidade e os campos dos arredores [agora subúrbios a abarrotar de prédios]. Hoje vamos descer por aqui”, explica a apontar o dedo indicador do mapa, a Rua do Bonjardim. A viagem a pé acabará na palma desta mão.
A caminho da rua passamos pelo “casino a céu aberto” numa das pontas da praça, onde grupos de reformados jogam cartas em frente à igreja do Marquês. Metros à frente, a primeira paragem de uma tour que vai provar-se demasiado curta: “Isto devia estar ocupado”, largam Pedro e Gui em frente ao edifício forrado de azulejos verdes, com uma estética que destoa dos demais.
Não será a única vez que os ouviremos dizer isto. Com a breve explicação sobre as diferenças entre esta mansão “show-off construída por uns portugueses retornados do Brasil” e os “prédios típicos do Porto, de granito, madeira e azulejos que, se não apanharem água dentro, duram séculos”, os guias parecem aperceber-se de que estão a perder a audiência.
A atenção é recuperada metros abaixo, quando voltam ao activismo e à ocupação. Estamos à porta do Musas do Bonjardim, uma associação bairrista com 70 anos que esconde uma pérola pouco conhecida de quem não é do Porto (e mesmo de quem é, a julgar pelo espanto do turista portuense). Dentro da casa joga-se xadrez, reúnem-se amigos do bairro, lêem–se livros emprestados pela biblioteca popular. Ao lado, uma portinhola de ferro esconde umas escadas tortas com uns cem degraus. “Querem entrar ou não vale a pena?”
Asubida a custo neste sábado de calor vale muito a pena. A namorada do eslovaco – único repetente das Worst Tours – corre para o baloiço improvisado com uma grade de cervejas e cordas, pendurado no ramo de uma árvore. Os irmãos luxemburgueses acocoram-se para observar plantas, árvores de frutos e flores desta horta comunitária, que pela altitude oferece uma vista deslumbrante sobre a cidade, deixando-nos ao nível do cimo das torres da Lapa.
Custa a crer que estas plantas sejam um dos motivos para a acção de despejo que está a ser movida pelos senhorios contra os arrendatários do espaço, onde há até um galinheiro e uma estufa com morangos de aspecto apetitoso.
O Musas é um dos poucos exemplos de aproveitamento de espaços abandonados ao longo da visita – sempre feita a pé, “até porque os autocarros turísticos não encaixam nas ruas mais interessantes”. O edifício que observámos minutos antes, como muitos dos prédios que vamos vendo, estão ao abandono, questão que é destacada várias vezes na visita. Com a ressalva de que as excursões e tudo o que nelas se diz é a versão “deles” – os arquitectos feitos guias turísticos, que se recusam a aceitar os maus-tratos, a burocracia e a falta de investimento na arquitectura única da Invicta.

Melhor empreendedor do mundo “Se quisermos ser empreendedores no Porto”, lamenta-se Gui, “tudo tem de passar pela Câmara. E qualquer documento traz uma nota de rodapé a dizer que não podemos dizer mal da Câmara. Mas o que é isto?! Quem chega aos microfones a elogiar as oportunidades maravilhosas neste país só pode estar comprado. Nós por cá vemos pessoas a dormir em cada esquina, gente sem electricidade porque o dinheiro não chega, gente nossa forçada a emigrar… Ruas em que só os bancos sobreviveram ao rolo compressor austeritário.”
Exemplo disto é a Es.Co.La da Fontinha, famoso caso da ocupação de uma escola primária ao abandono, numa colina perto de onde estamos agora, que fez correr tinta nos jornais de norte a sul do país em 2012. Um grupo de activistas ocupou-a e criou um espaço de actividades comunitárias; Rui Rio despejou-os e falou com associações culturais, que assinaram papéis a prometer não falar mal da Câmara. “Agora parece um hospital, tudo muito branco, com umas secretárias vazias, completamente descaracterizado”, diz Pedro. “Foi de centro social a centro de escritórios”, acrescenta Gui.
OWorst Tours, sublinham, é também uma crítica irónica a este “empreendedorismo auto-elogiado, sempre brilhante, sempre o máximo, sempre o melhor bolo de chocolate do mundo”.
Contra os melhores empreendedores, as piores excursões. E, sem dar por ela, chegamos ao Guggenheim. Quem já visitou o museu de Nova Iorque entende o paralelismo com o Silo Auto, parque de estacionamento circular ao lado da Torre dos Clérigos, que hoje poucos ou ne-nhum carro alberga. Voltamos a ouvir a frase “Isto devia estar ocupado”. “Até já pensámos num nome”, diz Pedro. “Silo Arte! Esta fachada merecia umas pinturas e lá dentro faziam-se actividades…” O eslovaco, com os ombros a arder fora das mangas cavas, responde com ar sério:“Mas depois os bancos ficam sem ele e eles precisam tanto do dinheiro…”

Erro de um ditador Já em modo acelerado, para não alargar em demasia a visita de três horas, vamos saltando de zona em zona: do Silo Arte (ainda Auto) descemos a Santa Catarina, a rua do comércio, com paragem no mercado do Bolhão, onde é Pedro que adopta um tom falsamente sério. “Este edifício é arquitectonicamente tão inteligente que queriam fazer dele um centro comercial…”“Auch”, reage, com real dor, a luxemburguesa que veio estudar para o Porto para aprender a língua e a cultura dos pais e dos avós. “Há seis anos ganhámos a batalha contra a câmara”, diz-lhe Pedro em jeito de consolação. “Mas precisa de ser reabilitado.”
Enquanto os outros dois arquitectos continuam a explicação em inglês, Isabel vem segredar-me “oque se está a passar” com o Bolhão. “É o que chamamos estratégia de degradação. A câmara não renova licenças, então as novas gerações estão impedidas de vender aqui. E ao mesmo tempo vai tirando estátuas que embelezam a fachada, não recupera partes degradadas… Deixa propositadamente que o edifício morra para poder fazer dele o que quer.”
Entre opiniões sobre o capitalismo impiedoso – que leva chineses a atirarem-se de janelas de fábricas para não continuarem a ser escravos-produtores de iPads – e uma paragem para aplaudir Ozi – um australiano que manuseia um fantoche tocador de violino em Santa Catarina – vamos dar à Passos Manuel, famosa rua do Coliseu. “As paredes foram pintadas recentemente porque se há coisa para a qual não há limites de orçamento aqui no Porto é para tapar posters e graffiti políticos”, explica Pedro a apontar para as fachadas, de um amarelo suave, sem pingo de mensagens.
A piada do Coliseu – e aqui voltamos a falar de arquitectura – é que é fruto da ditadura de Salazar. Os mais atentos, portugueses ou não, reparam rapidamente que a arquitectura pouco tem a ver com quase tudo o que se vê na cidade; uma breve viagem pela história da arquitectura mostra que é da corrente modernista, quase a dar para o Art déco. “Salazar não sabia que o modernismo estava ligado aos princípios da transparência, do acesso à cultura, do comunitarismo…” Quando descobriu, o mal já estava feito. E hoje o pessoal agradece.

Volta, SAAL, estás perdoado A correria que se segue pede um regresso para segunda, terceira, quarta visitas. Da Passos Manuel à Praça dos Poveiros, daqui pela Rua das Fontainhas em direcção às margens do Douro e paramos num dos arquipélagos de “ilhas”, bairros típicos do Porto, com casas térreas e quintais partilhados, que hoje albergam cerca de 8% dos portuenses. A paragem leva os arquitectos a uma viagem no tempo, para lamentarem, como tantos outros, o abandono do projecto SAAL. Liderado por Nuno Portas (“Vénia a ele”) no pós-25 de Abril, foi, dizem, “um exemplo de desenvolvimento arquitectónico e urbanístico participado”, no qual “não só foram tidas em conta as necessidades das pessoas, como elas acompanharam todo o processo”.
Daqui, descida em velocidade até ao rio e à Calçada das Carquejeiras, para espreitar os tanques comunitários, as casas degradadas nas encostas do rio, as cinco pontes seguidas que o atravessam.
Num dos muros onde paramos para recuperar o fôlego, uma única mensagem sobreviveu às limpezas estratégicas da Câmara: “Somos todos imigrantes.” Neste grupo quase todos são. Antes da despedida chegamos ao maior arquipélago de ilhas da cidade.“Com quem então não fazemos turismo de desastre?”, comenta Isabel com os colegas, ao passearmos entre as casas de gente pobre, ali espremidas com vista para o Douro. “Nós não fazemos turismo de desastre”, responde Pedro. “O nosso turismo é neo-realista. A realidade é que é um desastre.”

(edição impressa do jornal i, 11 de Maio 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Worst Tours I Worst Tours II Worst Tours III Worst Tours IV

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