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Vista de Jerusalém a partir do terraço do hospício austríaco

Vista de Jerusalém a partir do terraço do hospício austríaco

“Yala?”, pergunta-me Yousef a sorrir à saída do Aeroporto Ben Gurion. Primeira lição: esta é a palavra mais usada nos territórios palestinianos. Yala? Vamos?, yala sai da frente, yala despacha-te, yala que se faz tarde.

O dia ainda está a raiar e já fui interrogada durante 20 minutos por uma israelita para ter o visto. Dentro de uma hora as estradas vão começar a ficar cheias, mesmo sendo domingo, e o meu motorista quer adiantar-se ao tráfego para passar o dia de descanso semanal com a família. Portanto yala.

Entro na carrinha para o lugar do pendura, fico estática durante alguns segundos e, a medo, pergunto: “Há problema de me sentar aqui à frente?” Yousef olha para mim, confuso: “Porque é que haveria…? Não se esqueça de pôr o cinto.”

Estou na Palestina. Ou melhor, na Cisjordânia, o maior dos territórios palestinianos, ocupado há décadas pelos israelitas. (O outro é Gaza, desde 2005 controlado pelos islamitas do Hamas e onde é difícil entrar por agora.) Durante os 50 minutos de viagem, e enquanto Yousef me aponta checkpoints e se queixa da ocupação, a minha educação católica reprimida vem ao de cima quando começo a perceber parábolas como a das oliveiras que brotam de pedras. De Telavive, capital de Israel, a Ramallah, capital da Cisjordânia, são aos milhares entre os pedregulhos esbranquiçados. Nunca vi paisagem igual. Apenas o cheiro do ar, adocicado, lembra outros países árabes.

Pelo caminho, o muro que Israel está a construir neste território serpenteia lado a lado com as estradas. Em algumas partes, sobretudo em Belém, chega a ter o triplo da altura do Muro de Berlim, caído em 1989. Banksy é um dos artistas de rua que já rumaram de propósito à cidade-berço de Cristo para grafitar mensagens de apoio à Palestina no cimento. No caminho de Telavive a Ramallah, contudo, o muro está nu e partes dele estão ladeadas por minas antipessoal.

Vou enterrada no assento em silêncio, a pensar quantas mais ideias preconcebidas – como a de que uma mulher não se senta ao lado de um homem no assento da frente – vão ser destruídas. Quase todas. Não é verdade que aqui as mulheres tenham de usar roupa larga e comprida ou tapar o cabelo com um lenço. Não é verdade que não devem fumar em público. A verdade é que vou ser menos assediada durante nove dias aqui do que num curto passeio por Lisboa. E nas noites de álcool e dança hei-de ver palestinianas de minissaia, decotes generosos e quilos de maquilhagem, como noutras partes do mundo.

Fairuz é a banda-sonora desta primeira viagem na Palestina. “É uma das nossas cantoras mais famosas”, observa Yousef com o seu ar plácido. “Em qualquer casa há álbuns dela e hoje é dia de a ouvir.” Será a minha primeira busca no google assim que chegar ao hotel.

Ocidentalismos São seis e meia da manhã quando chegamos e as buzinas já são ensurdecedoras. Em Ramallah buzina- -se por tudo: para o vermelho passar a verde mais depressa, para os carros da frente desaparecerem por magia, para os peões deixarem de se lançar para a estrada porque não lhes apetece procurar uma passadeira. Em duas horas o corpo absorve-as e deixamos de as ouvir.

À parte as bancas de especiarias, pão pita e fruta fresca espalhadas em redor da Al-Manara, principal artéria de Ramallah, a cidade é parecida a muitas outras. Uma das primeiras coisas a saltar à vista são os logótipos pedidos emprestados a cadeias internacionais, como o da Stars&Bucks, versão árabe da Starbucks. Ramallah, hão-de dizer-me amigos palestinianos, não é a Cisjordânia: é uma cidade ocidentalizada e onde há pouco para visitar.

Duas excepções confirmam essa regra. Uma é o Museu Mahmoud Darwish, edifício de um branco luzidio onde está enterrado o poeta contemporâneo mais famoso da Palestina. Todos os dias vou à janela do meu hotel para avistar o edifício; não quero voltar para Portugal sem comprar poesia dele. A outra excepção é a Al-Muqata, onde Yasser Arafat está enterrado à espera da paz no Médio Oriente, para poder, enfim, descansar eternamente em Jerusalém.

As suspeitas de que o herói moderno da Palestina foi envenenado são certezas para este povo, ainda que os restos só tenham sido desenterrados há uma semana para se testar a presença de polónio 210 no cadáver decomposto. “Agora interessa é saber quem o envenenou”, dir-me-á um amigo de um amigo numa noite de partilha de xixa com sabor a maracujá.

Nove anos depois da sua morte, Arafat continua presente em todo o lado, grafitado nas paredes da cidade ou exposto em bares e cafés. A grande surpresa é que ao lado dele hoje figuram Cristiano Ronaldo, Lionel Messi ou Mourinho.

Real Madrid e Barça são a febre futebolística da Cisjordânia e o entretenimento por excelência de palestinianos e israelitas. Durante a minha estada, o clube madrileno vai jogar a Manchester e acabo num bar da moda a ver o jogo, regado a cerveja alemã e com relato em árabe, enquanto palestinianos madridistas berram para as televisões. Ao meu lado um jornalista da Al-Arabiya segreda-me: “Os palestinianos vivem divididos, Fatah, Hamas, Real, Barcelona…” Shadi, de uma aldeia aqui perto que é a minha companhia constante, diz que “70% somos do Barça e 30% do Real”. Mas os números variam consoante o interlocutor.

No dia a seguir ao jogo, uma criança num centro de A.T.L. na cidade velha de Jerusalém faz-me perceber o verdadeiro impacto destes clubes. “De onde és?”, pergunta-me em árabe, com a monitora a traduzir. “De Portugal.” Os olhos dele ficam brilhantes e larga, emocionado: “Nunca tinha conhecido uma pessoa da terra do Cristiano Ronaldo…”

Autismo De Ramallah a Jerusalém – o grande destino turístico por estas bandas, sobretudo nos feriados religiosos do Natal e da Páscoa – é meia hora de viagem com passagem obrigatória pela mãe dos mais de 600 checkpoints israelitas instalados na Cisjordânia.

Em Qalandiya aprendi a lição realmente obrigatória antes de ir à Palestina: os soldados israelitas não gostam de fotografias, mesmo que a objectiva não esteja virada para eles. Apesar de ser uma jornalista estrangeira a viajar a convite da União Europeia, os “meus” soldados não se compadeceram e a passagem pelo checkpoint – obrigatório para quem quer ir a Jerusalém e que apenas 2% dos palestinianos estão autorizados a atravessar – acabou com a minha máquina esvaziada de fotografias e a cara lavada em lágrimas, perante a impotência de me ver na mira de M16. (Nota apaziguadora: se viajar de autocarro ou num carro israelita, dificilmente passará por isto.)

A chegada a Jerusalém faz esquecer qualquer episódio bom ou mau pré-visita. O ar é eléctrico e os séculos de religiões inventadas ali pesam de tal forma que muitas pessoas, mesmo as pouco ou nada religiosas, se sentem profundamente iluminadas, inspiradas ou delirantes ao passear nas ruas da cidade velha. Chama-se a isto a síndrome de Jerusalém. E sim, está diagnosticada.

Antes de ir à cidade velha visitei um centro de tratamento de crianças autistas no Hospital Princess Basma, em Jerusalém Oriental – um dos poucos que oferecem cuidados de saúde a crianças palestinianas nesta cidade dividida. A dada altura fui levada a uma “sala sensorial”, criada para desenvolver as capacidades de socialização dos autistas, com paredes de várias texturas, projectores de luzes e bolas de espelhos, colchões e uma máquina de sons variados que estimulam os seus sentidos.

Horas mais tarde aterrei no quadrado dividido em quatro – o bairro muçulmano, o judeu, o arménio e o cristão – e rodeado por paredes altas e seculares que é a cidade velha. Num dos seus cantos, homens e mulheres dividem-se em frente ao Muro das Lamentações, com as cabeças enfiadas no Torah, a abanarem-se para a frente e para trás. Na ponta oposta, a Catedral do Santo Sepulcro está estritamente dividida para acomodar espaços de culto de cristãos coptas, cristãos católicos, cristãos ortodoxos e cristãos arménios. Não se misturam, mas todos se esfregam nas texturas da madeira-marco de onde Cristo ascendeu aos céus, da urna erguida onde Cristo foi crucificado e da pedra sob a qual Cristo jaz. A dada altura, ecoam sons a convocar mulheres de véu e homens, que prevalecem sobre elas, a rezar virados a Meca.

Jerusalém, dou por mim a pensar, é uma sala sensorial a céu aberto para adultos autistas que, ao contrário das crianças seguidas no Princess Basma, parecem regredir a cada dia. Jerusalém também vende os melhores morangos que alguma vez comi: duas caixas compradas nas portas de Damasco por 10 shekels (cerca de dois euros). Antes disso, e graças a uma amiga que vive em Jerusalém, tocava à campainha do hospício austríaco: hoje transformado em hotel, bem escondido no coração do bairro muçulmano, tem jardins quase paradisíacos e, no terraço, vista privilegiada das casas que ali se acotovelam.

Éden “Bananas de Jericó, as melhores do mundo”, diz Mohammed a estender–me uma, quando me vê a tirar fotografias à sua banca de fruta na Praça de Jericó. Diz-se que esta é a cidade mais antiga do mundo. E dizem os crentes que foi algures nos arredores dela que existiu o El Dorado das religiões guiadas pelo livro do Génesis: o jardim do Éden. Foi nele que deus criou Adão e Eva, nele que o primeiro homem sucumbiu aos pecados terrenos. Não o encontrei (também não o procurei). Em lugar disso, amaldiçoei o frio de Ramallah, que me fez vestir uns collants para acabar a suar as estopinhas 600 metros abaixo do nível do mar, onde o sol bate o dia todo, todos os dias, e onde as temperaturas não descem abaixo dos 25 graus.

A pressa não me deixou usar o Mar Morto para tirar o calor do corpo, mas consegui avistá-lo. Depois de percorrer algumas dezenas de quilómetros de Jericó ao vale da Jordânia, ali estava ele e com ele o catolicismo reprimido a ressurgir em força. Afinal Cristo andou sobre a água mais pela concentração de sal do que por milagre, já nos explicou a ciência. Imagina-se, ao olhar para a água, a força de ver o profeta não ir ao fundo (e não, não é verdade que as mulheres só podem banhar-se aqui vestidas).

Jericó exige uma visita mais empenhada e longa, tal como Belém, Jenin, Nablus, Hebron… As únicas cidades que explorei foram Ramallah e Jerusalém. Nesta última, a um dia do meu regresso, visitei a Livraria Educacional para pegar num livro de Mahmoud Darwish. Não para o comprar como queria, por receio de o ver afundado num caixote de lixo ainda antes de fazer o check-in no Ben Gurion, a conselho de funcionários da UE que já ficaram sem muitos bens antes de descolarem do aeroporto israelita.

Na página aberta ao calhas estavam estes versos: “Será verdade, boas senhoras e bons senhores, que a terra do Homem é para todos os seres humanos, como dizem? Se é, onde estou eu?” Estamos na Palestina. Mesmo que muitos não a reconheçam.

(suplemento LiV do jornal i, 13 de Abril 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: LiV Palestina I LiV Palestina II LiV Palestina III LiV Palestina IV

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