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O indonésio não adivinhava que a elegia à professora da primária o tornaria o escritor mais vendido de sempre do país. À conversa com Joana Azevedo Viana, Hirata falou da tropa do arco-íris e do seu grande sonho: ser professor
Os_Guerreiros_do_Arco_Iris

Quando Andrea Hirata sentiu necessidade de começar a escrever pareceu-lhe óbvio juntar as suas duas grandes paixões: livros e badminton. Na altura era um funcionário dos correios da Indonésia desencantado com o rumo que a sua vida tinha tomado e a ideia depressa deixou de fazer sentido. “Estava completamente perdido na ironia da minha vida. O meu plano A, tornar-me escritor e jogador de badminton, tinha desaparecido. Até mesmo o meu plano B, de escrever um livro sobre badminton, falhara.”

O livro – mais de cem mil palavras em 34 capítulos depois de uma “intensa pesquisa” ao desporto – era um fardo tão pesado como o seu trabalho de separar cartas e encomendas e “ser insultado por clientes antes sequer de ter a hipótese de tomar o pequeno-almoço”. Por isso, numa manhã “particularmente frustrante”, decidiu embrulhar os manuscritos, atá-los com “um nó inquebrável”, correr até à ponte Sempur em Java Ocidental e atirar o embrulho ao rio Ciliwung. “Se não ficasse preso nas pedras do leito do rio, flutuaria nas enchentes em direcção a Jacarta, afastando-se com os meus sonhos.”

Ao ver esse sonho afastar-se, o indonésio estava a reescrevê-lo sem saber. E hoje, oito anos depois de se ter tornado o escritor do arquipélago mais lido do mundo, mal acredita no que lhe aconteceu. “Só imaginar que o meu romance vai estar nas mãos de tanta gente em Portugal e noutros países faz-me sentir assoberbado. E muito honrado”, conta numa conversa em Lisboa quando referimos os números de vendas: mais de 5 milhões de cópias e traduções em 40 países até agora. “Passei numa livraria aqui e fiquei incrédulo: É o meu livro! É irreal…”

Guerra pela educação O romance que o tornou famoso não tem nada a ver com badminton. Chama-se “Os Guerreiros do Arco-Íris”, nome de baptismo de uma troupe de dez crianças que, com os seus dois professores, passam um ano lectivo a tentar manter aberta a escola mais pobre da ilha Belitong. A história torna-se poderosa sobretudo por ser real: Ikal, o narrador, é Hirata, criança-guerreiro de uma das mais de 17 mil ilhas do arquipélago, “uma daquelas que muitas vezes nem aparecem no mapa-mundo”, diz.

“Tenho de dizer-te, Joana, que não escrevi esta história para ser publicada. Era um presente para a minha professora.” A professora é Bu Mus, a rapariga de 15 anos que baptizou e liderou a tropa no ano em que começou a dar aulas – o mesmo ano em que as companhias mineiras fizeram tudo para deitar abaixo o edifício decadente para explorar os recursos de estanho escondidos no subsolo. “No meu quinto ano fiz uma promessa a Bu Mus: ‘Quando crescer vou escrever sobre si, querida professora, para que toda a gente fique a conhecer a sua dedicação.’”
Durante a entrevista tentamos acertar a cronologia dos eventos, ao que Andrea responde que “sim, o romance passa-se no início dos anos 80”. A informação poderá baralhar os mais atentos, que na aba da edição em português lêem que Andrea nasceu em 1982. Se é ou não verdade não saberemos para já; a Wikipédia estava certa sobre o escritor querer manter secreto o ano do seu nascimento. “Quero que seja um mistério. Na vida é preciso algum mistério”, diz a sorrir, com caracóis a aparecerem por baixo da boina preta e um lenço tradicional indonésio ao pescoço.
Hirata fala como escreve: frases curtas, tudo bem explicado, muita humildade. Na conversa num hotel de Lisboa perdemos a conta às vezes que diz estar surpreendido e honrado por, de repente, se ver reconhecido no mundo inteiro. E mais que isso pelos efeitos de “Os Guerreiros do Arco-Íris” no seu país natal.
Desde que a primeira edição chegou às bancas indonésias, em 2005, Bu Mus foi homenageada com o mais alto prémio entregue a professores pelo presidente do país; hoje, pelo menos 20% do orçamento do arquipélago é dedicado à educação e as visitas turísticas à sua ilha cresceram 1800%. “Também aconteceu graças ao filme realizado por Riri Riza, que depois foi integrado no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 2009”, justifica.

Graças à longa-metragem, hoje já se fala na hipótese de criar a Excursão dos Guerreiros do Arco-Íris, como as que se fazem em Nova Iorque de séries como “O Sexo e a Cidade”, mas numa selva diferente: a ilha de 100 quilómetros de diâmetro plantada no mar de Java, com mato por desbravar e pântanos cheios de crocodilos.

Educação para todos Numa noite de ventos fortes algures nos anos 90, a escola onde a tropa do arco-íris assistia às aulas de guarda-chuvas em riste durante as monções – a Muhammadiyha – foi arrasada. A produção do filme reergueu-a. “Foi reconstruída como era, a pender para um lado, com os telhados podres, pelas pessoas que fizeram o filme. Agora é uma das grandes atracções turísticas da Indonésia e a Belitong uma ilha reconhecida graças a um trabalho literário.”

Ao dizer isto, Hirata recosta-se na cadeira e deleita-se num raro momento de orgulho. “É uma história simples, com que qualquer pessoa se relaciona, mas tentei que retratasse grandes questões, como o direito à educação, os direitos humanos, a política, a economia, a cultura…”
Antes de vir a Lisboa apresentar o livro – uma de dezenas de paragens numa tour que já vai em quase dois meses – disseram a Hirata que as mesmas empresas mineiras que na sua infância queriam destruir a Muhammadiyha, agora atribuem pelo menos 2% do total das receitas a comunidades locais de Belitong e outras ilhas. “Ouvi dizer que fazem isto por causa do meu romance! Agora na Indonésia há muitas iniciativas independentes para ajudar crianças pobres a ir à escola e tenho recebido muitas mensagens de pessoas envolvidas a dizerem-me que foram inspiradas pelo livro.”

Nas leituras que tem feito em escolas de Espanha, Alemanha e outros países, Hirata diz que tem confirmado a suspeita de vários anos: que os alunos hoje têm muito potencial e formas de aceder à informação, mas que se sentem “perdidos nos seus talentos”. “Falta-lhes inspiração. E acho que é isso que o meu livro traz. Quis honrar os meus professores e os meus nove colegas: honrar Bu Mus, que não recebia nada e que não era reconhecida por ninguém; o meu melhor amigo, Lintang, que todos os dias tinha de fazer 80 quilómetros e atravessar rios cheios de crocodilos para ir à escola e mesmo assim chegava antes de toda a gente. Quis escrever isto por Bu Mus e para que mais ninguém tenha de passar pelo que Lintang passou.”

Não desvendamos o que Lintang passou, apenas que, depois de ter sido camionista, hoje o melhor amigo de infância de Hirata é “um produtor de cocos de sucesso na ilha”. Como Lintang, todos os soldados do arco-íris continuam a viver em Belitong. Incluindo o soldado tornado separador de cartas tornado escritor mundialmente conhecido, que em 2012 fundou um museu com o seu nome. “Foi o que a história da minha infância me inspirou: criar o primeiro museu literário da Indonésia, que é também um centro de ensino de Inglês, Matemática e outras disciplinas para crianças pobres; tudo é gratuito e financiado com os meus direitos de autor.”
Voltamos ao livro de badminton perdido nas águas do rio Ciliwung.Andrea solta gargalhadas.
“Esse livro foi uma expressão de frustração, da situação miserável que é escrever às vezes.

Depois disso tentei ligar a minha história à realidade e acabei por escrever com o coração. Às vezes tenho a sensação de que os escritores tentam escrever coisas complexas, talvez para que os leitores achem que eles são inteligentes, mas não sou esse tipo de escritor. Não sou nenhum tipo de escritor. Tenho tanto para aprender… Quis escrever esta homenagem e ela teve um impacto tão positivo na minha ilha e no meu país… Oque escrevi no meu romance foi o que me ajudou a ter força para descobrir o que queria fazer.”

O que Andrea quer fazer agora não é jogar badminton, tão-pouco ser escritor a tempo inteiro. “Quero ser professor, é o meu maior sonho. Pelo meio talvez escreva romances, mas o que quero mesmo é ser Bu Mus. Quero ser como aquela rapariga de 15 anos que foi a minha professora e que um dia nos disse que estudar não serve só para arranjar emprego e que ensinar é dar tudo o que se tem. São tudo clichés, eu sei. Mas é tudo verdade.”

(suplemento LiV do jornal i, 30 de Março 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Hirata I Hirata II

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