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Há 4700 palestinianos no campo de refugiados de Aida: 0,71 quilómetros quadrados de espaço onde Bento XVI citou Francisco de Assis, dois anos antes de o santo renascer no papado

Vista do terraço da escola de rapazes do campo de refugiados de Aida, gerido pela UNRWA em Belém, na Cisjordânia

Vista do terraço da escola de rapazes do campo de refugiados de Aida, gerido pela UNRWA em Belém, na Cisjordânia

Há dois checkpoints incontornáveis no caminho de Ramallah até Belém. O primeiro é Qalandiya, o pai das mais de 600 gaiolas de ferro espalhadas pela Cisjordânia, de passagem obrigatória para os palestinianos como as máquinas de raios X dos aeroportos para os turistas antes do embarque.Em Qalandiya, a rotina é diária e em vez de seguranças amistosos são soldados armados os gestores do que Israel diz serem “postos de controlo de segurança”. Nos últimos anos, desde a violenta segunda intifada (revolta) contra a ocupação israelita, os checkpoints são palcos de uma realidade absurda. Milhares de crianças atravessam-nos diariamente para ir à escola; há pessoas a ter ataques cardíacos e palestinianas a darem à luz em frente às grades – ou porque não têm autorização para chegar a Jerusalém Oriental ou porque a maleita falhou o horário imposto para as passar (em alguns checkpoints, só 15 minutos de manhã, 15 à hora de almoço e 15 ao cair da noite).No dia anterior à viagem a Belém quis fazer Qalandiya a pé, experimentar a rotina dos 2% de palestinianos autorizados a entrar em Jerusalém. Quem se desloca em veículos de matrícula amarela (israelita) passa a barreira pelo lado direito, no que parece mais uma linha de guichets de portagens que um checkpoint. Ocupantes de carros com matrículas brancas e verdes (palestinianas) e cidadãos da Cisjordânia sem carro passam pelo lado esquerdo, zona com cerca de dez grades e portões de ferro, cada um com um gabinete recheado de soldados que gerem os milhares de passagens diárias.Ao querer ser palestiniana acabei enfiada numa sala minúscula a mando de uma soldado fardada, sombra azul nas pálpebras, brincos e um anel de diamantes falsos, que parecia ter uns 19 anos e só parou de brincar no telemóvel quando achou que eu tinha ignorado a ordem para esperar pelo “chefe de segurança” (podia ter ignorado, mas foi o altifalante, subitamente com falhas, que pregou uma partida às duas). Fui levada para uma sala com mais três soldados de M16 em riste, onde me ameaçaram de prisão caso voltasse a fazer fotos num checkpoint. A chancela União Europeia e a carteira de jornalista não valeram de muito. Saí do cubículo encharcada em humilhação e sem uma única fotografia na máquina.O segundo checkpoint a caminho da cidade-berço de Jesus Cristo é Aisha, que, apesar de mais pequeno que Qalandiya, nem por isso é menos assustador: um bloco de cimento e ferro que enclausura por completo Aida, um dos 18 campos de refugiados palestinianos da Cisjordânia.

Antes de Aisha, na estrada que nos leva a Belém e Beit Jala, avista-se no cimo de uma colina o esqueleto de um edifício de proporções aparentemente gigantescas. A Guerra dos Seis Dias, em 1967, pôs em pausa a construção do que seria o castelo do rei Hussein da Jordânia, então dono da Judeia e da Samaria (nomes bíblicos ainda usados pelos judeus para se referirem à Cisjordânia). Quando os jordanos saíram e Israel assumiu o controlo, o campo de Aida era um adolescente de 17 anos.

Clausura Aida nasceu pouco depois de Israel. A instalação do Estado judeu em 1948 deu início a fugas de palestinianos em massa, levando à criação da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA); em 1950, o campo era instalado aqui.

Hoje há cerca de 5 milhões de refugiados espalhados pelos campos da UNRWA em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria e na Jordânia. Só no campo de Aida há mais de 4700 refugiados, oriundos de 17 vilas dos arredores, espremidos em menos de um quilómetro quadrado. O campo não passa de uma pequena aldeia onde o UNRWA é rei e onde as placas espalhadas pelos edifícios mantêm viva entre a comunidade a memória das terras aonde, um dia, poderão regressar.

O reinado UNRWA, contudo, é uma fachada: por se situar na área B (25% da Cisjordânia), o controlo civil é feito pelos palestinianos mas o militar está a cargo dos israelitas. No mês passado foram várias as incursões do exército e as detenções de habitantes no campo.

“Do ponto de vista da UNRWA”, diz- -nos Mahmuda Ali, líder de operações da agência, “temos de manter a neutralidade; fazemos relatórios sobre cada incidente a relatar exactamente o que se passou. Às vezes são os palestinianos que instigam, outras são os israelitas. Notável é a discrepância entre uns e outros. No outro dia Israel disparou balas verdadeiras contra o campo e um dos alunos da escola de rapazes onde estamos foi atingido. Acho que não se vai safar”, diz Mahmuda, de olhos pregados no chão. “É apenas uma criança… Dias depois”, continua, “vimos que ali na torre se estavam a preparar para qualquer coisa. Em poucos minutos, estavam a disparar gás lacrimogéneo contra a escola.”

Muro Do terraço desta escola é impossível não avistar “a torre”, uma coluna de pedra que se ergue do posto de controlo de Aisha, por trás do muro que serpenteia através de Belém a perder de vista. Noutras partes da Cisjordânia trata-se de uma barreira de arame farpado. A caminho daqui há zonas em que está ladeada de minas antipessoal e, já em Belém, passa a ser um muro físico.

Se o de Berlim, caído em 1989, fosse erguido aqui hoje, ninguém daria por ele. Os nove metros de altura tornam este muro três vezes mais alto que a cortina de ferro que dividiu Berlim durante 28 anos – e além de separar famílias, impedidas de passar o checkpoint de Aisha, já destruiu 60% a fonte de sustento de vários habitantes, a produção agrícola. “As melhores uvas que já comi eram cultivadas naqueles campos”, diz Ibrahim Abu Sroor, espécie de caseiro de Aida, com olhos negros cavados na cara enrugada, a apontar o que agora é uma planície sem vegetação à vista.

Abu Sroor é um dos poucos idosos do campo. Pelas contas da UNRWA, só 30% desta população tem mais de 50 anos; a restante é sobretudo composta por adolescentes e jovens, cujas famílias dependem de trabalhos mal pagos com patrões israelitas ou do programa de emprego que a agência financia. Em 2012 houve 8500 beneficiários destas bolsas, de 420 dólares por mês e que podem ir de um a três meses consoante o nível de pobreza do núcleo familiar.

Política, religião Ahmad é um dos jovens que se qualificam para o programa da UNRWA. Tem 24 anos e andou na escola que acabámos de visitar, à entrada da qual um rapaz moreno de olhos verdes me fez uma vénia e disse: “Olá, sou o Chico, bem-vinda ao meu campo!”

Num edifício no final da rua, contíguo à mesquita de Aida e usado pelo comité popular, Ahmad pede a ajuda de um intérprete para explicar porque não trabalha. Em Julho de 2012, já depois de casar, Ahmad acordou sem conseguir andar. Sentia-se doente desde Dezembro de 2011 e conseguiu um papel da Autoridade Palestiniana para ir ao Hospital Princess Basma, centro médico para crianças e jovens deficientes em Jerusalém Oriental. “Mas como já estive detido por participar num protesto, Israel não me deu licença.” A doença por diagnosticar prende o corpo de Ahmad à cadeira-de-rodas que a comunidade lhe arranjou. Até hoje, a licença não chegou.

Ao lado de Ahmad, Abdel Fatah Abusrour dispara 14 apelidos que marcam cada uma de dez gerações. Foi o único da família a nascer num campo de refugiados, este, em 1956. “Quando era criança tínhamos espaço para brincar. Agora temos este muro, estamos na mira de snipers e de câmaras de vigilância de última geração.” Em 1985, Abusrour conseguiu ir estudar Biologia para França. Mesmo então, por ter BI palestiniano, foi-lhe recusado visto de estudante. “Tornei-me ilegal. Mas consegui formar-me.”

Nove anos depois, o engenheiro voltou a Aida. “Sentia que tinha de fazer alguma coisa pelos meus. Nós somos iguais a vocês, só queremos gozar a vida e a beleza das coisas.” Hoje gere actividades de tempos livres com as crianças do campo, encena peças de teatro, dá palestras de História.

Faltam duas semanas para a visita de Obama a Ramallah e poucas para marcar os dois anos da visita do Papa Bento XVI a Aida, comentada em várias ruas e corredores do campo. Hoje, à chegada, os retratos nas paredes lembram habitantes detidos em prisões israelitas; ao lado deles, o muro é uma mancha de mensagens pró-Palestina, desejos de liberdade e desenhos de tamanho monstruoso.

Mas em Maio de 2009 o cimento estava despido. Antes da chegada do Papa, alguns habitantes do Aida montaram um palco no terraço da escola que acabámos de pisar. “É isto que queremos que o mundo veja”, dizia na altura Munther Amira, desejando que Ratzinger discursasse dali. Tal não aconteceu, mas o papa não esqueceu a barreira monumental. “Num mundo em que cada vez mais fronteiras são abertas, é trágico ver muros a serem erguidos”, disse a 13 de Maio no campo de jogos da escola. Ahmad tinha 22 anos e saúde. Chico, o meu anfitrião, tinha 12 e ainda preferia jogar à bola a deitar olho às meninas da escola do lado.

Na altura em que visitei Aida ainda não havia papa Francisco, mas o santo em que Bergoglio se inspirou já tinha passado por lá. A missão de freiras franciscanas que funciona no campo inspirou Bento XVI na sua visita: “Aqui lembro-me das belas palavras de S. Francisco: ‘Onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver ofensa que eu leve o perdão.’”

“Não vale a pena esperar nada dos políticos. Nem de Obama, nem do Papa”, diz–nos Abusrour em tom céptico. Mas, acrescenta, Bento XVI tinha razão numa coisa: na terra onde as religiões foram inventadas “só a política trará a solução”.

(edição impressa do jornal i, 20 de Março 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Aida I Aida II

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