Home
Quase metade dos palestinianos da cidade velha de Hebron já fugiram; os que ficam não têm outra hipótese. Viagem ao fundo de um dos maiores pesadelos da Cisjordânia, pela mão de um ex-soldado israelita
Hebron, Shuhada

“Isto não é uma história sobre eu estar num checkpoint, mal-disposto porque o pequeno-almoço chegou tarde e a comida estava fria, e como precisava de descarregar a minha frustração algemei e vendei um palestiniano e pu-lo a secar ao sol durante 18 horas porque ele sorriu demasiado”, diz Yehuda Shaul.

Estamos no centro da cidade velha de Hebron, no sul da Cisjordânia, a olhar na direcção do seu dedo que aponta para uma base militar no cimo de uma das colinas que nos rodeiam. “Esta história”, continua, “é a primeira coisa que eu fiz como soldado. Lembram-se de ir ao salão de jogos do centro comercial, escolher uma máquina, meter uma moeda e brincar com o joystick? Aqui é o mesmo mas a sério. E à borla.”

Yehuda (lê-se ‘Yuda’) tem uma cara redonda, uma barriga proeminente, chinelos nos pés com as unhas por cortar e barba negra por aparar. Com um kippah pousado de forma quase mágica no cocuruto, parece-se mais com um rabi do que com um ex-soldado do Exército israelita. Estamos a segui-lo há duas horas, faltam três para a excursão terminar e já foi insultado duas vezes. “Yehuda, tu és o Shaul! [apelido israelita comum, referente ao primeiro rei do antigo reino de Israel] Diz a verdade!”, grita-lhe um judeu ultraortodoxo de uma paragem de autocarro. “Colonos… Adoram-me”, reage com um riso nervoso. Nenhum fala aos estrangeiros.

A rua Shuhada, onde parámos para a explicação, é a artéria principal do centro de Hebron, hoje uma cidade fantasma. Os edifícios bombardeados, as portas de ferro soldadas, os graffiti obscenos nas paredes, as ruas cortadas com tapumes de cimento são marcas indeléveis com aval da unidade militar de Yehuda, transferida para o maior distrito desta zona da Palestina no pico da violência da Segunda Intifada (revolta).

A história que vai contar, diz o ex-soldado, “é longa, mas importante”. No dia em que chegou a Hebron, terminada a recruta, mandaram-no para as “barracas da escola”, a base que aponta, montada numa escola primária palestiniana. “Cheguei lá nas primeiras horas da manhã. No primeiro andar equações de matemática rabiscadas no quadro, manuais nas mesas, cadeiras pequenas; no segundo, caixas de granadas, redes de camuflagem, sacos de areia. O líder do meu pelotão senta-me em frente à metralhadora de granadas, explica-me quem são os bons e os maus, os conceitos H1 e H2 e diz: ‘Eles disparam, tu disparas.’” Yehuda tinha 19 anos. “Estão loucos?”, reagiu o jovem soldado. “Isto não se pode fazer!”

Corria o ano de 2001, auge da intifada mais sangrenta até hoje lançada pelos palestinianos contra a ocupação israelita. A base, como muitas outras, fica no H1, a parte palestiniana de Hebron depois da divisão especial da cidade sob os acordos de paz de Oslo. Os primeiros tiros não tardaram. “Lembrem-se que falamos de granadas. Meses antes, nos meus treinos no deserto do Negev, ensinaram-me que só se deve usar granadas quando não há ninguém num raio de uma milha. O que é me dizem…?”, pergunta a observar longamente as milhares de habitações que escorrem pelas encostas em redor da escola militarizada.

“Compreendam também”, continua “que uma metralhadora de granadas não é uma arma de precisão, não há forma de visar um alvo, puxar o gatilho e acertar. Se fores um operador de metralhadoras de granadas realmente bom consegues acertar no alvo à sétima vez.” Se não se tirar o dedo do gatilho, uma arma destas dispara 80 granadas por minuto. No embate explodem. Pessoas num raio de oito metros morrem, num raio de 16 ficam feridas.

Depois da contestação inicial, Yehuda seguiu as ordens. E ao final de duas semanas, “aqueles palestinianos danados ainda não tinham compreendido a mensagem, então as ordens mudaram e já não íamos esperar que eles disparassem. Semanas depois continuavam a não ceder, passámos às patrulhas violentas. Para lhes ensinar a lição nas ruas.”

Rebentar com carros ou disparar contra lojas, contra tanques de água ou pratos de satélite eram parte do cardápio. “Já alguma vez esmagaram um carro com um tanque? Vêem um Mercedes novinho em folha estacionado na rua, woop, carro esmagado. É muito divertido, deviam experimentar…”

Eufemismos Horas antes, na viagem de 50 minutos de Jerusalém em direcção ao Sul, Yehuda avisa que vai usar muitos eufemismos. “Divertido”, “a razão é muito simples” e “os danados dos palestinianos” são os que usa mais.

Ao contrário da velocidade a que dispara informação em Hebron, no autocarro o antigo soldado faz pausas de vários segundos entre cada frase e respira fundo, numa aparente tentativa de reorganizar na cabeça a adolescência militarizada e a história da associação que fundou para “pôr a sociedade israelita em frente ao espelho e exigir que assuma responsabilidade moral e cívica pelo que está a ser feito em seu nome”.

A Breaking the Silence nasceu em 2004, meses depois de lhe ter “caído a ficha” no salão de jogos real que é Hebron. Em Israel o serviço militar é obrigatório: quando fazem 18 anos, os rapazes iniciam três anos de serviço obrigatório, as raparigas dois. Dos três de Yehuda, dois foram passados aqui – cidade de importância redobrada para o Judaísmo por albergar o túmulo dos patriotas, Abraão e Sara, e onde, desde 1968, os israelitas já construíram cinco colonatos, ilegais aos olhos da comunidade internacional.

“Para mim, o ponto de viragem foi vir a Hebron pela primeira vez não como soldado de combate mas como civil. É um momento aterrador, porque quando páras de pensar como soldado as coisas deixam de fazer sentido, perdes justificação para 90% das acções em que participaste.”

A sensação de que alguma coisa estava errada só a conseguiu articular quando começou a falar com “camaradas” e percebeu que não estava sozinho. Ao abrirem os seus álbuns de fotografias, vieram as certezas. “Tínhamos fotos a abusar de corpos, imagens nojentas.”

O grupo de 65 soldados decidiu inaugurar uma exposição na capital reconhecida de Israel sob o slogan “Trazer Hebron a Telavive”, mas apenas com fotografias “banais”. “Não queríamos pôr as pessoas a vomitar. Queríamos que elas compreendessem o que se passa ali ao lado, o que nos mandam fazer em seu nome.”

No primeiro dia da exposição vieram centenas de israelitas. Nos olhos dos visitantes terror. “Lembro-me de um dos soldados me dizer: ‘Yehuda, eles estão chocados com o quê? Isto é o dia-a-dia…’ Nunca esquecerei este momento. Foi aí que compreendemos a lacuna gigante entre o que é a realidade e o que as pessoas comuns acham que é a realidade. E que depois de trazer Hebron a Telavive, tínhamos de levar Telavive a Hebron.”

Os militares feitos guias turísticos têm na ponta da língua os dados que interessam para perceber a Hebron de hoje. “Porque é que já passaram tantos anos desde o fim da violência e esta parte da cidade continua ao abandono e interdita a palestinianos? Por três razões. Uma, a estratégia militar no terreno: para proteger os 850 colonos que vivem no coração de uma cidade com 125 mil palestinianos foram criadas áreas esterilizadas.” A Casbah, praça central de Hebron, a rua Shuhada e várias outras zonas estão incluídas na categoria.

“A segunda”, continua Yehuda, “a acção diária dos soldados nas ruas, o que fazemos para o que achamos ser o garante da ordem pública”. Um recolher obrigatório de 371 dias seguidos durante a Segunda Intifada foi a primeira ordem. Depois disso os checkpoints e raides diários e aleatórios a casas palestinianas. A terceira? “Violência dos colonos. Mas já lá vamos.”

Estende-nos um documento do Exército, datado de 2009, seis anos depois do último homicídio de um israelita (amigo de Yehuda) em Hebron: “Missão: Perturbar a rotina diária dos palestinianos a viver nestes bairros.” É uma das poucas ordens declaradas do Exército em Hebron. “O apartheid instalado na realidade não existe”, acrescenta.

Em 2004, o município palestiniano de Hebron entregou uma petição ao Supremo Tribunal israelita contra a proibição dos palestinianos circularem em várias partes da cidade velha. Um ano depois, uma carta assinada pelo procurador-geral pedia desculpa pelo “erro” cometido com a promessa de o corrigir. “Um erro de seis anos, mas compreendemos, estas coisas acontecem”, comenta Yehuda. A história arrastou-se até 2007: depois de travadas quase todas as tentativas de activistas passearem com palestinianos em Shuhada, o Exército ia finalmente ser ouvido no Supremo. Na noite anterior à audiência, as portas soldadas foram abertas e os palestinianos receberam licenças para andar nas ruas. Três meses depois foram renovadas; outros três meses, renovadas. A resposta ao terceiro pedido está por chegar até hoje.

Enquanto fazemos a nossa excursão, outros ex-soldados da Breaking the Silence lideram três grupos israelitas, desde jovens quase a atingir a idade do serviço militar obrigatório a cidadãos que se inscreveram no site da associação. Todos caminham de boca aberta e de máquinas fotográficas em riste. O sol desaparece por alguns instantes por trás de um autocarro que passa por nós. Do lado de fora frases em hebraico; lá dentro, mulheres de peruca, homens e rapazes com um canudo de cabelo encaracolado por cima de cada orelha e o resto da cabeça rapada. “São excursões de herança cultural organizadas pelo governo de Netanyahu, [actual primeiro-ministro de Israel].” A dividir-nos só dois metros e o esqueleto do autocarro. E no entanto estamos em continentes diferentes.

Apartheid Desde 2004 que não há granadas a explodir nem tiros a serem disparados em Hebron. Isso não só não tirou peso à realidade da cidade, como não fez alterar em nada a actuação das forças israelitas. À chegada à Casbah, Yehuda aponta-nos as grades que impedem os palestinianos de chegar ao que, em tempos, foi o coração comercial da cidade. Do outro lado da vedação, crianças impingem aos estrangeiros pulseiras feitas pelas mães e avós. “Shekels, dólares, euros”, gritam. Já no fim da Shuhada, um grupo semelhante aguarda-nos, com as mãos erguidas como se repousassem numa parede que não está ali. Pisam o último (o primeiro?) centímetro de chão onde podem estar sob ordens militares. A partir dali, a rua deixa de ser esterilizada. Quando os alcançamos sorriem: “Bem-vindos à Palestina!”

Resistência Islam tem 25 anos, nasceu e cresceu em Hebron e, por baixo da t- -shirt, esconde três cicatrizes de balas disparadas por soldados israelitas. O Exército fala em balas de borracha; Yehuda e Islam desmentem. “São de metal com uma cobertura de borracha.” Dias antes, Mustafa Barghouti – líder do partido Iniciativa Palestiniana que perdeu as presidenciais de 2005 para Mahmoud Abbas – mostrara-nos o raio-X do crânio de uma criança que morreu vítima destas balas.

“You are very beautiful”, diz-me Islam num inglês arranhado. “My dream is to marry a woman like you.” Oferece-me uma pulseira, pede-me que tiremos uma fotografia. “Quando voltares trazes-ma?”, pergunta. Prometo que sim.

Minutos antes de passarmos a parede invisível para esta Palestina, observávamos as soldaduras das portas de casas palestinianas. Quem continua a viver ali – nos últimos anos, 42% das casas ficaram vazias – tem de subir ao terraço do prédio e descer por escadas de incêndio sempre que quer ir à rua. A dada altura, um carro de patrulha parou ao pé do grupo para avisar Yehuda de que não podemos seguir caminho. Hoje é Dia de Raiva nos territórios ocupados, estão convocados protestos como os que se têm repetido na Cisjordânia nos últimos meses, todas as sextas-feiras depois das orações, contra o tratamento dos 4500 palestinianos sob “detenção administrativa” (indefinida e sem condenação formal).

Há poucos dias, a revolta incendiou-se com a morte de Arafat Jaradat, habitante de Hebron de 30 anos, pai de duas crianças, que morreu seis dias depois de ter sido detido. A Autoridade Palestiniana, único governo reconhecido pela comunidade internacional, diz que Jaradat, “um homem saudável”, morreu da tortura a que foi submetido. Israel mantém que a autópsia foi “inconclusiva”.

Desde a morte de Jaradat, a 23 de Fevereiro, que os media internacionais se desdobram em antevisões de uma Terceira Intifada. Tirando a temperatura aos palestinianos na Cisjordânia, percebe-se que tal já esteve mais longe de acontecer, mas que, a haver uma, deverá começar por ser ao jeito da primeira (1987): pacífica, onde as únicas armas usadas foram pedras e palavras de ordem.

Issa Amro, um dos organizadores de protestos não-violentos em Hebron, é apologista disto. “Com a Segunda Intifada não ganhámos nada, só perdemos. Na altura eu organizava grupos de estudantes para irmos protestar, mas depois [os israelitas] começaram a matar manifestantes pacíficos, só num dia em Hebron mataram cinco, e tudo descambou. O que temos de fazer é manter a resistência pacífica, é a nossa forma de luta.”

Issa é doutorado em resistência pacífica. Desde o início do ano já foi preso três vezes. Uma porque se recusou a andar do lado esquerdo, palestiniano, numa rua dividida. A outra porque organizou o que Yehuda e vários jornalistas palestinianos e israelitas classificaram de “protesto mais criativo da década”: convidou mulheres israelitas e internacionais a vestirem-se como palestinianas conservadoras para irem passear na Shuhada; os militares não gostaram.

À terceira foi preso porque empurrou um vizinho israelita que invadiu a sua casa. “Baruch Marzel veio aqui, entrou na minha casa, pontapeou-me e esmurrou-me e eu expulsei-o. Os soldados prenderam-me porque ‘agredi um colono’.” Marzel não é apenas um homem aparentemente louco que vive a 20 metros da casa de Issa; é um dos políticos israelitas mais radicais da actualidade, fundador da organização de extrema-direita Kach – que EUA e Israel já integraram nas listas de organizações terroristas. E o Exército só existe em Hebron para proteger os colonos. Quando um colono agride um palestiniano, é a polícia civil israelita a responsável por fazer cumprir a lei. “Nunca vêm”, garante Yehuda.

Casa Branca é o nome de baptismo do edifício onde Issa vive e onde organiza desde protestos e reuniões a visionamentos dos jogos do Barça e do Real Madrid (é a febre futebolística da Cisjordânia). Sentados no quintal desta casa oficial, ouvimos de Issa a última parábola de Hebron. Duas semanas antes da nossa visita, uma israelita do colonato de Qiryat Arba teve um sonho: Abraão – profeta bíblico que é pai do Judaísmo mas também do Cristianismo e do Islamismo – disse-lhe que uma fonte natural ali perto, onde os palestinianos vão banhar-se em dias de calor, é exclusiva dos judeus. “O Exército escoltou-a até aqui para nos dizer que Abraão ordenou que deixemos de usar a fonte às sextas e aos sábados. Em que século estamos?” Aqui ninguém parece saber ao certo.

A meio do discurso efusivo, uma exclamação de Issa esbugalha vários olhos: “A nossa situação aqui é pior do que em Gaza!” Em 2005, o plano de retirada unilateral da Faixa de Gaza provocou a ira de muitos em Israel. Depois da contestação, a decisão de Ariel Sharon perante a vitória eleitoral do Hamas (que até hoje controla a região) foi cumprida. “Em Gaza”, explica Issa, “eles só sofrem quando há guerra. Mas aqui é diário! Muitos estrangeiros que foram a Gaza e que vieram aqui dizem-me ‘Issa, aqui é diferente’. Enfrentamos agressões todos os dias, a toda a hora. Do soldado do checkpoint que discutiu com a namorada e está mal–humorado, dos Marzel…”

Estamos na Casa Branca e faltam duas semanas para Barack Obama chegar a Israel, numa visita oficial que vai incluir uma passagem pela Cisjordânia. “Temos actividades preparadas”, garante Issa sem levantar o véu. Dias depois do nosso encontro, já de regresso a Portugal, procuro as últimas notícias sobre Hebron. “13 de Março de 2013. Palestiniano morto por soldados israelitas durante violência em Hebron.” A notícia refere um homem de 25 anos. Pergunto-me se terá sido Islam, o meu pretendente.

(edição impressa do jornal i, 16 de Março 2013, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Hebron I Hebron II Hebron III Hebron IV

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s