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O investigador bielorrusso quer amainar a onda de optimismo em torno da internet como alegado instrumento libertador das sociedades

Revolução Verde no Irão em 2009

Revolução Verde no Irão em 2009

Quem passou as décadas de 80 e 90 a ouvir falar da geração X já deverá estar familiarizado com a geração Y, a dos que nasceram e cresceram entre os anos 80 e o início dos 2000. Numa tradução livre do inglês, chama-se a estes “actores tecnológicos” os mileniais (millennials). E 58% deles preferiria abdicar do sentido de olfacto do que do seu telemóvel.

O bielorrusso Evgeny Morozov é, por inerência, um destes mileniais. Nascido em 1984, foi o convidado mais jovem da conferência sobre “Como mudar o mundo?”, organizada pelo filósofo holandês Rob Riemen e o seu Instituto Nexus em Amesterdão esta semana. Mas a idade parece ser a única coisa que o integra no grupo em que metade das pessoas dá prioridade à tecnologia em prol dos trunfos biológicos humanos – e onde dados como esta estatística são apresentados em jeito de sinal dos tempos em livros como “Hybrid Reality;Thriving in the Emerging Human-Technology Civilization”, de Parag Khanna, escritor e geoestratega indiano naturalizado americano.

Ao lado de Khanna no teatro da Leidseplein, no centro de Amesterdão, Morozov coíbe-se de tecer as mesmas críticas que, uma semana antes do encontro, fez ao livro na sua coluna semanal na revista “The New Republic”: esta última publicação de Khanna é um “panfleto” repleto de “disparates digitais futuristas” e de dados como o dos 58%, a que chama “factóides irrelevantes”. Palavras suficientes para perceber que Morozov é um milenial desiludido.

Chamam-lhe cibercéptico, um dos líderes de uma nova corrente de pensamento sobre o advento da internet e das tecnologias e o perigo de olhar para elas como armas libertadoras dos povos. Quando, em Junho de 2009, milhares de iranianos saíram às ruas de Teerão para a Revolução Verde – exigindo a queda do presidente reeleito Mahmoud Ahmadinejad, acusado de fraude – os media internacionais influenciaram e muito a forma como se olhou para esse embrião da Primavera Árabe.

Mas enquanto a generalidade aplaudia o poder galvanizador das redes sociais no Irão, Morozov reforçava as críticas assíduas ao lado nocivo destes instrumentos, ainda que dois meses antes tivesse feito parte dessa onda optimista, tornando-se num dos primeiros a falar de uma “Revolução Twitter” perante protestos semelhantes na Moldávia, depois das eleições parlamentares.

“Foi difícil não ser infectado pelo optimismo e excitação em torno da agenda de liberdade pela qual se lutava na altura”, diria Morozov ao “The Guardian” em 2011. “Pensei genuinamente que [as redes sociais] estavam a fazer a diferença. Ademocracia parecia estar a avançar, a marchar, e a web 2.0 parecia fazer parte disso, unindo as pessoas nas ruas.” Os acontecimentos que se seguiram em Teerão desfizeram esse castelo de areia. O mesmo efeito que a retórica de Morozov no debate no teatro de Amesterdão e depois à hora de jantar, numa recepção organizada nos arquivos municipais da cidade em que a jornalista o apanhou disponível, parece capaz de surtir.

“Estas ideias que foram surgindo em torno da internet e das tecnologias, isto de toda a gente achar que a internet é a melhor coisa que foi inventada, é contraposta pelo que as pessoas em Silicon Valley estão a fazer, por exemplo”, diz a esbugalhar os olhos, num inglês fluente mas com algum sotaque. “Estamos a viver a era do solucionismo desmesurado, inventam-se soluções para problemas que nem sequer existem e as coisas são cada vez mais mediadas pela tecnologia. Se ao menos conseguíssemos compreender o que queremos, que problemas temos e porque é que eles apareceram; se acalmássemos esta necessidade desenfreada de perfeccionismo… A mudança é possível por causa de deficiências nos sistemas, seja na natureza ou na tecnologia. Este perfeccionismo encerra um lado negro.”

Horas antes da conversa com a jornalista, os aplausos às palavras de Morozov na conferência foram gerais e sonoros, mas no meio deles notou-se um certo desconforto. Depois de uma chapada de luva branca pela escritora Margaret Atwood – que lembrou que, graças a esta dependência tecnológica, “hoje nem sequer conseguimos arranjar as nossas torradeiras” – Morozov voltou ao ataque e as palmas que se seguiram, ainda que gerais, já não foram tão efusivas.

Mesmo assim, nos corredores do teatro Stadsschouwburg, já depois das discussões sobre como mudar o mundo ou porque é que precisamos de o mudar, Morozov era um dos conferencistas mais citados em inúmeras conversas paralelas em meia dúzia de línguas (houve vários espanhóis e franceses a rumar à capital holandesa para assistir à conferência). Na banca de livros improvisada num dos andares do edifício, dezenas de pessoas correram a comprar o seu “The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom”, espécie de bíblia deste cibercepticismo que põe a nu a ingenuidade do mundo globalizado em relação às novas tecnologias.

Nele, Morozov diz que “as pessoas assumem de alguma forma que a internet vai ser o catalisador da mudança que levará os jovens às ruas, quando na realidade pode antes vir a ser o novo ópio das massas que vai manter essas mesmas pessoas nos seus quartos a fazer download de pornografia”.

O caso Twitter na Revolução Verde é sintomático das expectativas inflamadas em torno da internet, diz Morozov. O email que um diplomata americano enviou à administração Obama para que esta pedisse à rede social que adiasse uma manutenção programada para a altura dos protestos iranianos abriu um “precedente perigoso”. Um com várias consequências, entre as quais o facto de todos os utilizadores do Twitter no Irão passarem a ser vistos por Ahmadinejad como “agentes do Ocidente”, levando muitos a serem presos pelo regime.

Apesar dofoco neste caso, no discurso lato de Morozov o maior problema das redes sociais está na sua propriedade. “Oque a Google está a fazer em África é sistematizar todos os dados do continente. Eles querem saber onde é que cada empresa local opera e como, querem mapear tudo o que tem a ver [com África] e assim que estiver tudo sistematizado, vão começar a fazer dinheiro a partir daí”, denuncia. “O meu medo é que as infra-estruturas de informação que vão emergir nas economias africanas sejam essencialmente privadas, construídas e operadas pela Google. Se achares que a Google é um actor benevolente que não fará nada de mal com esses dados, não existe nenhum problema. Mas eu não acredito nisso e acho que estes [gigantes cibernéticos] são actores poderosos que devem ser temidos.”

É na questão Google que o bielorrusso introduz a única ressalva que faz ao seu quase alarmismo sobre os perigos da internet. “Acho que nenhuma destas tendências é produto de alguma lógica inerente à tecnologia ou à internet em si mesma. Em larga escala, são produtos da economia política e das várias condições de mercado em que estas plataformas operam.”

Daí a urgência de refrear a onda de optimismo em relação às plataformas cibernéticas e ao suposto poder libertador da internet, diz. A “ciberutopia” que quase levou a web a ser galardoada com o Nobel da Paz em 2009 (Barack Obama levou a melhor) e que Morozov cita nos seus estudos angaria-lhe, em igual medida, aplausos e ataques. Uma que encerra hipotéticos problemas a longo prazo pela exultação que a geração Y faz da internet, bem maior do que o júbilo em torno de outras tecnologias por gerações anteriores. “Se olharmos para a história da humanidade”, diz-nos antes de rumar ao hotel, “vemos que a nossa evolução tem sido mediada pela tecnologia. Tivemos a idade do telégrafo, do plástico, das bombas nucleares… Nesse sentido não estamos a viver uma era excepcional. Mas esta ideia não deve ser levada demasiado longe. Tendemos a romantizar o que já alcançámos tecnologicamente e, neste momento, isso pode vir a cegar-nos.”

Da Bielorrúsia com cautela Nascido na Bielorrússia em 1984, Morozov estudou na Universidade Americana da Bulgária. Antes de ir parar aos EUA, onde vive e trabalha hoje, viveu alguns anos em Berlim. Os seus artigos de opinião semanais na revista “Slate” são publicados pelo “El País”, “Corriere della Sera”, “Folha de São Paulo” e outros media. Em Março chega o seu novo livro: “To Save Everything Click Here: The Folly of Technological Utopianism”(suplemento Redes Sociais do jornal i, 8 de Dezembro 2012, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Morozov I Morozov II

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