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Se Bruxelas se tornou demasiado mainstream e as visitas da praxe à Grand Place e ao Atómio não o convencem, a experiência inesperada de Joana Azevedo Viana pode ser a alternativa na próxima viagem. Basta ter (ou alugar) um carro
Doel

A bem da honestidade, convém explicar que o conceito de rapto no título tem mais a ver com o factor “não saber ao que se vai” que com o conceito de se ser encapuzado contra vontade e arrastado para um armazém abandonado. Se bem que adormecer na viagem em direcção ao Norte da Bélgica com destino a Doel e acordar sem saber o que nos espera é quase equivalente a um sequestro.

A sensação inevitável de repetição ao visitar Bruxelas é nota comum entre muitos profissionais – portugueses e não só. Temos a agradecer à União Europeia por isso. A primeira vez que se põem os pés na cidade cumprem-se os ritos de visitar a Grand Place e o Atómio, beber pelo menos sete cervejas diferentes num bar da Place Flagey, comer mexilhão com batatas fritas e comprar chocolates para a família. À segunda vez a coisa já perdeu a piada. Razão pela qual um convite inesperado para assistir a um jogo organizado por amigas belgas me tenha parecido uma boa forma de passar as últimas horas antes do regresso da enésima viagem a Bruxelas.

O cansaço e o barulho do festejo de mais uma vitória de Portugal no Euro, contra a República Checa, impediram a conversa sobre o dia seguinte. Só sabia que tinha de me levantar às seis da manhã, o que nunca cai bem numa pessoa dada aos deleites da preguiça matinal. Quase tive de ser levada em braços até ao carro, onde dormi durante uma hora até acordar em frente a um cemitério bem cuidado.

A primeira ironia de Doel é uma carrinha de jardineiros e um camião do lixo a cirandar pelas estradas quando se abrem os olhos de um sono aparentemente profundo. O cemitério e as zonas verdes estão tão bem tratados que, assim que percebemos que chegámos a uma verdadeira terra fantasma, julgamos estar numa espécie de quinta dimensão.

Desde 1999 que o governo de Antuérpia está a expulsar todos os habitantes de Doel, de olhos postos no porto da região belga e com a mão na algibeira a sonhar com cifrões. Um dos mais importantes da Europa, o porto de Antuérpia estava por aquela altura a ficar atolado, pelo que se impunha um alargamento. E Doel, terra perdida entre centenas de contentores e fábricas, a poucos metros de uma central nuclear, parecia perfeita para inundar.

Como com quase tudo, o que fazia sentido no final do século passado é hoje mera utopia. Com a aterragem da crise, os planos de alargamento foram postos de parte. Mas por essa altura já muita gente tinha cedido à pressão e saído de Doel, hoje apenas um museu de edifícios ao abandono, grafitados por quem descobre a pérola mais bem escondida da região e ali deixa mensagens de apoio às cerca de dez pessoas que se recusam a abandonar a terriola.

Por mais ginástica mental que se faça, é incompreensível como alguém consiga continuar a viver em Doel. Num raio de não sei bem quantos quilómetros não há supermercados nem cafés e nenhuma das terras que se avistam parece fértil o suficiente para um estilo de vida alternativo. Faz crer que quem ficou, fê-lo num finca-pé digno de aplausos.

Só me apercebi disto horas depois de andar pela cidade em pura incredulidade. Enquanto a Adeline e a Julie tratavam dos últimos preparativos para o jogo, reparei que ao lado do cemitério onde estacionámos a carrinha havia uma casa de porta aberta. Ao aproximar-me, o meu amigo Adrien apontou para o canteiro com uma suástica verde desenhada por baixo das buganvílias, aviso perfeito aos incautos. Horas depois, o dono acabaria por nos vir dizer que podíamos usar a casa de banho a nosso bel-prazer (não chegámos a arriscar.)

Para o que é a verdadeira zombieland dos filmes (afinal não é preciso ir a Chernobyl para ver uma coisa assim), a cidade tem demasiadas proibições: “Não deixar malas no terraço”, diz uma placa em frente a um dos moinhos mais antigos da Bélgica, situado em frente da central nuclear. “Não entrar. Videovigilância”, diz outra pendurada na porta da escola vazia. A minha favorita: o sinal de “Não estacionar” em frente ao portão de metal criado para inundar Doel no dia em que for aberto pela primeira (e última) vez.

Foi esse portão que inspirou a Adeline e a Julie, contratadas por uma empresa para organizar um dia diferente de team-building. O grupo de 40 pessoas chegou de camioneta e recebeu uma carta a informar que tinham até ao meio-dia para impedir que as autoridades inundassem Doel, seguindo pistas espalhadas pelos edifícios, pelo cemitério de poemas em honra dos resistentes, pelo moinho, para encontrar a chave da salvação. Foram bem sucedidos. Mas porque era só um jogo.

O destino da cidade parece estar escrito: um dia, Doel a quem doer, será só uma memória em pedaços de pedra pintados, numa versão menos positiva do Muro de Berlim. A cidade é ao mesmo tempo linda, doentia e triste. Prova de que no mundo de hoje já não há espaço para cidades idílicas, só números, como disse o Adrien. Até lá restam lamentos e Doel tem muros dedicados também a isso. Diante de um deles, Adrien traduz-me o texto do holandês: “Quando os souvenirs substituírem a minha tristeza, talvez possa pôr em palavras o que agora são só lágrimas.”

(suplemento LiV do jornal i, 14 de Julho 2012, exportada para o online aqui)

PDF do artigo original: Doel I Doel II

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